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Crônica : Jacó, o Coitadinho – Mas nem tanto

POR GIL ALVES DOS SANTOS

1 – Vendo a novela o GÊNESIS na TV Record, do bispo Edir Macedo, resolvi reapreciar meus rudimentos bíblicos que, com as vênias respeitosas, não diferem de um verdureiro para com a robótica. Como qualificação para emprego, passaria fome, com certeza. De literatura, nada sei, nada conheço. Mas quando morava em Bom Jesus, no sul do Estado do Piauí, um amigo e companheiro, VIVALDO LEMOS FERNANDES, aí por volta de 1967, deu-me de presente um exemplar de LUIS DE CAMÕES, OBRA COMPLETA, EDIÇÃO AGUILAR, 1963, até hoje, bem conservada, e, pode acreditar, mesmo não tendo figuras como a Manchete, O Cruzeiro ou Fatos e Fotos, meu livro de cabeceira, o que é estranho para quem dorme numa rede.

2 – Falar de Camões e o seu clássico OS LUSÍADAS, é tarefa para cultos, eruditos, filólogos. Não é o meu caso, um tangedor de jegues nas brenhas de Timon, Buriti Cortado e Zumbí, míope de conhecimentos, um insipiente das letras, venham elas de onde vierem. Já antes do presente de Vivaldo, no Liceu Piauiense, mestre Paulo Nunes bradava:- “Cesse tudo o que a Musa antiga canta/ Que outro valor mais alto se alevanta.” Era fascinante ouví-lo de cor citar o Velho de Restelo, Ó gloria de mandar! Ó vã cobiça desta vaidade a quem chamamos fama” (Canto, IV, estrofes 94-104), uma crítica sibilina ao expansionismo insano do reino de Portugal, impelido tão só e apenas pela cobiça. Nosso ouro, das Minas Gerais, fala mais alto! E Inês de Castro, a mísera e mesquinha/Que depois de ser morta foi Rainha? Tudo é estupendo, soberbo, fantástico.

Pena que hoje seja uma obra destinada às traças. Não sei se Camões é o Michelângelo das letras ou se Michelângelo, com sua Pietá, seu David, seu Moisés, é o Camões do mármore – na verdade, como se fosse cêra, tal a facilidade com que burilava o duro calcáreo.

3 – Ué, cadê a Bíblia? Jacó, o coitadinho? Chego lá. Camões não titulava os seus poemas, sempre dacassílabos – algo próximo ou mais de 180. Um dia, inspirado como sempre, conhecedor da Bíblia, escreveu o seguinte soneto:

“Sete anos de pastor JACÓ servia

“Labão, pai de Raquel, serrana e bela;

“Mas não servia ao pai, servia a ela,

“Que ela só por prêmio pretendia.

“Os dias, na esperança de um só dia,

“Passava, contentando-se em vê-la

“Porém, o pai, usando de cautela,

“Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

“Vendo o triste pastor que com enganos

“Lhe fora assim negada a sua pastora,

“Como se a não tivera merecida,

“Começa de servir outros sete anos,

“Dizendo:- Mais servira, se não fora

“Pera tão longo amor tão curta a vida!

4 – Jacó, pastor de ovelhas, gêmeo de Esaú, filhos de Rebeca e Isaque, à semelhança de Moisés, viu a amada Raquel, já uma balzaquiana, pela primeira vez no poço da família, onde bebiam os rebanhos de Labão ou Nahor, seu tio, pois parente próximo de Rebeca , sua mãe (Gênesis, capítulos 29 e 30). Foi paixão à primeira vista, fulminante. Tanto que Jacó, é o que diz a Bíblia, não sabemos se “ficaram,” permaneceu como hóspede por um bom tempo na casa de Labão. Liso, bolsos vazios, tinha que ralar duro para pagar a bóia e também mostrar que era um homem trabalhador:- contratado pelo tio Labão, um velho com 120 anos, foi Jacó – meu osso e minha carne – exercer na grande propriedade o seu ofício de pastor, alimentando o espírito – e a carne – de ter Raquel como sua legítima esposa, laborando por sete anos, tempo bastante para fazer sua poupança e pagar o dote a Labão pela compensação da honra de Raquel. E assim foi consertado, desfeita a enganação, reparado, o casamento de Raquel com Jacó. Na celebração das bodas celebrou-se um magnifico concerto.

5 – É neste ponto que entra Camões. Pois a cautela de Labão, foi, na verdade, enganação, um estelionato conjugal. Como naquela época já existia a burca, inventada justamente dessa prática, Labão à meia-noite, entrou na alcova de Jacó e na cama coberta com tapete persa[é só lembrar de Cleópatra, com Elizabeth Taylor, enrolada no tapete], recebeu Lia como se fosse Raquel. Ouriçado, só na manhã do dia seguinte percebeu a fraude. Mas não pense, como sugere o poema, que Jacó, triste, decepcionado, tenha feito a devolução de Lia ao pai. Nada disso! Trabalhou, é verdade, por mais sete anos, até que finalmente conseguiu Raquel, que era serrana e bela.

6 – Não satisfeito em deitar com as duas irmãs, o inverso de Vadinho de Jorge Amado, ainda catapultou Zilpa, empregada de Lia; e Bila, empregada de Raquel. Com as quatro gerou 11 filhos e apenas uma filha, Dina. A poligamia, como se vê, tem a idade da humanidade. E Camões, não deveria ter sido piedoso com Jacó, que após brigar com Deus, saiu côxo, trocou de nome, passando para ISRAEL, pois na verdade, só ele saiu ganhando com a cautela do Tio Labão. Vem daí o sonho de se alcançar a qualquer custo a ambicionada Escada de Jacó, que sendo côxo nela não subiu? Com a palavra os caprinocultores!…

GIL ALVES DOS SANTOS, aposentado do Banco do Brasil, é advogado militante da Justiça do Trabalho e da Justiça Federal. ([email protected]). Telefone:- 86-9972-0524.

1 comentário

CÉSAR WILLIAM
Comentou em 31/07/21

“TADINHO” DO LEITOR INACAUTO
OU
ALTOS E POLIFÔNICOS DIÁLOGOS GILVANIANOS

É quase fim de tarde de um comprido sábado para mim, quase monótono, se não fosse a companhia da minha ternurinha, Emily Clarice e agora, essa bela crônica do escritor Gil Alves dos Santos que de inocente sobre o labor literário, nada tem.

Em pouco espaço ele se revela apreciador do que há de melhor no cenário das letras universais: Sagradas Escrituras, Luís Vaz de Camões, entreleninhando Machado de Assis, Shakespeare, acionando Jorge Amado, conduzindo-nos ao romance “Dona Flor e seus dois maridos”.

Genial! Uma cartada de mestre para quem se diz nada saber acerca da literatura. Em seu rico texto ele mantém diálogo não somente entre algumas obras literárias e a Bíblia, mas entre gêneros diferentes, envolvendo prosa, poesia; telenovela, cinema.

Além disso, ainda contempla as artes plásticas, brindando-nos Michelângelo.- banquete para quem se debruça em torno de análises discursivas e dialógicas, à luz bakhtiniana. Tolo eu seria, se não o parabenizasse pela feitura textual e pela sofisticada e corajosa análise comparativa em torno de uma das mais belas produções textuais de todos os tempos, Soneto 29, do célebre e eterno Luís Vaz de Camões. Bravo! Avante!

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