Hospital da prefeitura de São Luís é investigado após explosão de mortes na UTI infantil

Do G1 - Maranhão
O Ministério Público do Maranhão (MP-MA) investiga o aumento no número de mortes nas UTIs infantis do Hospital Odorico Amaral de Matos, o Hospital da Criança, em São Luís, uma das unidades públicas de saúde mais importantes do estado.
A investigação reuniu reclamações enviadas à Ouvidoria-Geral do Sistema Único de Saúde (SUS), que relatam a situação das UTIs, a incapacidade técnica de profissionais, atos de negligência e imperícia médica, além do consequente aumento no número de óbitos.
Segundo a denúncia, em 2025, 113 crianças teriam morrido no hospital. Desse total, 101 mortes aconteceram dentro das três UTIs do Hospital da Criança. O aumento seria de 159% em relação a 2024, quando foram registrados 39 óbitos (veja mais abaixo o que dizem as autoridades).
"Esses casos aí demonstram não somente uma negligência no atendimento, ao ter uma escala que não atende à demanda e à sobrecarga de trabalho dos médicos pediatras, como também, pelas prescrições, certamente imperícias por parte dessa equipe de profissionais do IBMED de Teresina" , explicou o promotor de Justiça Herbertb Figueiredo, da 1ª Promotoria da Saúde.
O aumento dos óbitos coincide com a mudança na gestão das UTIs do Hospital da Criança. Em outubro de 2025, a Prefeitura de São Luís realizou uma licitação para contratar uma empresa responsável pelo gerenciamento das UTIs da unidade.
O Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED) venceu a licitação. Segundo a denúncia encaminhada ao MP-MA, o contrato teria reduzido drasticamente os recursos destinados ao custeio das UTIs, assim como o número de médicos da equipe.
"Hoje nós trabalhamos lá com três médicos, um em cada UTI. E já foi levado para a direção, levado para as coordenações. Já foi falado, já foi dito de todas as formas que isso é ilegal, que é errado, que não pode, que não é assim" , disse uma funcionária do hospital que preferiu não se identificar.
Mãe diz que demora no atendimento no Hospital da Criança em São Luís causou morte de bebê com bronquiolite: 'cada minuto conta'
Em 2024, a Defensoria Pública do Estado recomendou ao Ministério Público que anulasse o contrato entre a Prefeitura e o IBMED. A decisão apontava falhas graves no edital, como a redução da equipe e a contratação de médicos sem a especialização exigida para o atendimento infantil. As irregularidades foram confirmadas pelo Ministério Público.
"Há um parecer técnice-centábil da assessoria técnica do Ministério Público no qual há, realmente, a constatação não apenas de uma, mas de várias irregularidades no processo licitatório. O processo licitatório está eivado de nulidades que marcaram esse certame", disse o promotor.
O contrato poderá ser cancelado, segundo o Ministério Público, caso sejam comprovados atos de negligência ou imperícia nas mortes. O órgão informou que vai abrir um inquérito para apurar as responsabilidades.
Os relatos de pais apontam falhas no atendimento, falta de medicamentos, redução das equipes e possíveis problemas na assistência prestada às crianças internadas.
Samila dos Santos Lobato e Ismael perderam os dois filhos gêmeos, Bento e Bernardo, de quatro meses, em menos de 24 horas. Os bebês, que moravam com a família em Rosário, foram levados ao hospital com sintomas gripais.
Bento foi internado na madrugada de sábado, 27 de junho, com suspeita de bronquiolite. Segundo a mãe, ao chegar à unidade, ela se deparou com várias crianças entubadas aguardando atendimento. Oito horas depois, Bernardo foi internado no mesmo hospital.
"Quando eu entrei, meu coração esfriou porque vi várias crianças entubadas. Quando chegou a vez do meu filho, a médica o avaliou e disse que a solução seria entubá-le", contou Samila.
O quadro do bebê se agravou. Bento teve duas paradas cardiorrespiratórias e foi transferido para a UTI, mas não resistiu. O atestado de óbito aponta como causas da morte insuficiência renal aguda, pneumonia, pneumotórax e choque séptico, estágio mais grave da sepse, uma infecção generalizada que provoca uma resposta inflamatória intensa no organismo.
Na quarta-feira, enquanto Bento era enterrado em Rosário, o irmão Bernardo continuava internado em São Luís e seu estado de saúde se agravava. Segundo a família, ele ainda reagia quando a mãe voltou ao hospital após o enterro. Bernardo foi entubado, mas não chegou a ser levado para a UTI. Ele morreu na quinta-feira (2), por volta das 9h.
"É uma sensação horrível saber que levei meus filhos vivos. Eles olhavam para mim, e eu pensava que iam salvar a vida dos meus filhos, mas não", disse a mãe.
"Enterrar dois filhos em menos de 24 horas é inadmissível. Faltou atenção, faltou profissionalismo", afirmou Ismael.
Ismael registrou, em São Luís, um boletim de ocorrência para apurar a responsabilidade pela morte dos filhos. Segundo o delegado Joviano Furtado, o inquérito policial foi instaurado.
"Já instauramos o inquérito policial, estamos ouvindo o pai das vítimas e esperamos que, no prazo de 30 dias, possamos chegar à conclusão sobre a existência ou não de negligência por parte do hospital e, consequentemente, indiciar o (s) responsável(is) pelo fato. "
Outro caso é o de Otton, filho de Lexciane Barbosa e André Luís. O menino tinha paralisia cerebral, microcefalia e síndrome de West, mas, segundo os pais, recebia todos os cuidados necessários. Há seis meses, a criança morreu.
Otton foi internado em janeiro deste ano com uma infecção intestinal. Após 17 dias de internação, morreu. A declaração de óbito também aponta choque séptico como causa da morte.
"Eles nunca falaram que ele estava com sepse. Nunca falaram para a gente que ele estava com pneumonia. Para mim, faltou assistência total", disse a mãe.
Os pais afirmam que exames deixaram de ser realizados durante o período de internação e que, mesmo após a transferência para a UTI, a assistência não teria sido suficiente.
"Ele foi piorando, a gente questionando, e os fisiotenapeutas pedindo raio-X, mas o médico nunca passava", disse a mãe.
Os inquéritos estão em fase de conclusão. Caso sejam comprovados atos de negligência ou imperícia nas montes dessas crianças, o MP abrirá um inquérito criminal para apurar as responsabilidades.
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