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Túnel do Tempo: A Roseira da Inês – Oeiras X Teresina

Por Gil Alves dos Santos

1 – Estamos no mês de Agosto, quando se comemora o aniversário de Teresina, bairro chic de nossa Timon. Resolví, então, contar ao meu leitor aqui do Blog do Elias Lacerda uma história – verdadeiramente verídica. Assim, um muçulmano convertido ao cristianismo, dito cristão novo, ante o temor da fogueira da Inquisição, que estava alí próxima, em Évora, bem ao lado do Templo de Diana, que sendo mouro declarou-se Moura, e como ele mesmo dizia, de muita Fé, tornou-se conselheiro do Monarca habitante do Palácio de Queluz, no distrito de Cintra e a 10 Km(s) de Lisboa, onde estive em fins de 2019. Soberbo!

2 – Numa tarde primaveril de 1710 em que caminhava nos grandes e bem conservados jardins do palácio em companhia do Rei, em português enrolado, pois a palavra gringo ainda era desconhecida, fez-lhe uma petição verbal, assim:

“Majestade, eu querer fundar um vila no Colônia Brasil, com o nome de OEIRRAS, por ser anagrama do ROSEIRA do meu mulher Inês.”

3 – O Rei, batendo no gongo, mandou chamar o seu escriba e ordenou-lhe que em companhia do calígrafo real fizesse o decreto para posterior assinatura no Palácio, criando a vila sugerida por seu fiel conselheiro. E aí aconteceu um cochilo do escrevinhador:- ele “engoliu” um dos erres do anagrama sugerido (América, Iracema; Alice, Célia; Roma, amor) e o que era para ser OEIRRAS, de ROSEIRA, ou por achar horrorosa uma cidade com tal nome, tornou-se simplesmente OEIRAS,

submetida a “…ardentíssimos calores…” piauienses, conforme descobertas recentes, ainda não divulgadas, do Arquivo da Torre do Tombo, em Portugal, no momento somente acessadas pelo escriba destas mal traçadas linhas. Anos depois, por obra e graça de Dom Pedro I, O Libertador, a Colônia tornou-se independente com o nome de Brasil, e a Vila Oeiras, já decorridos 63 anos, era a Capital do Piauí. Mas a terra era “…seca e estéril…”, incapaz por isso, de gerar riquezas para a região. Para administrá-la, Dom Pedro II, o Magnânimo, nomeou o baiano iluminado de Santo Amaro, JOSÉ ANTÔNIO SARAIVA, amigo do pai de Dona Canô, como presidente da província, cargo que não foi além de três anos

4 – Saraiva, elegante, bonitão, olhos azuis, um doutor nas ciências jurídicas, no vigor dos seus vinte e sete anos, amigo do rei, sabe do desafio que iria enfrentar na região à época inóspita, nas palavras de Noronha, “seca e estéril Vila do Môcha.” A idéia de se construir e conservar uma capital no meio da caatinga nunca foi de seu agrado. É preciso mudar! Coragem e dinamismo não lhe faltaram. Devo dizer, abrindo um parêntese, que meus rudimentos de História remontam ao velho Liceu Piauiense, quando o gênio barrigudo insuperável, Professor Camilo, o Camilão, deitava saber e erudição para mortal algum botar defeito. Uma maravilha! Mas hoje uma tal Wikipédia, com o seu socorro já pronto, ai está para ensinar tudo e de tudo com uma velocidade inimaginável. Fraco de conhecimentos, fiz um passeio na indicada biblioteca informatizada. Parêntese fechado.

5 – Descendo Môcha abaixo, com dois ou três de seus auxiliares mais próximos, conseguiu, depois de muito remar, já no Rio Canindé, chegar em Amarante ou Mulato. Aqui pegou uma balsa mais confortável, com destino à Vila do Poty,

ancorando onde exatamente, hoje, está o Pesqueirinho, então moradia de uma meia dúzia de índios da tribo que deu nome ao Bairro. E por ser um doutor muito simples, homem do povo, saboreou umas piabas, com limão e pimenta-do-reino, vindas dos jiquis dos pescadores que alí moravam. Da Vila foi para São Luis (MA) e de navio chegou ao Rio de Janeiro, rumando em seguida até Petrópolis. No encontro com o Imperador, de quem era amigo, foi bastante pragmático: “Majestade! Oeiras não tem sustentação para ser a capital do Estado do Piauí. Vamos mudá-la para a Vila Poty” – oportunidade em que descreveu as maravilhas da futura capital – e em homenagem a sua Alteza Dona Teresa Cristina de Bourbon, sugeriu que a capital, já desenhada por seus técnicos, recebesse o nome de TERESINA.

6 – Disse o rei: vamos cuidar dos papéis. Proponha à Assembleia a lei necessária à mudança da capital de Oeiras para a Vila Poty, futura Teresina. Dando um salto no tempo, foi assim que em 16 de agosto de 1852, a então Chapada do Corisco, depois Vila Poty, tornou-se Teresina, capital do Estado do Piauí, localizada entre os Rios Poty e Parnaíba, este como eixo com o resto do mundo. Segundo os sábios, uma Mesopotâmia mais que moderna, vibrando no vigor de seus cento e sessenta e nove anos. E Teresina, que vejo infinita, rio abaixo, rio arriba, do Mirante da Ponte Estaiada, que tem o nome do Mestre Izidoro! Aí está Teresina nos seus cento e sessenta e nove anos de idade – uma cidade cristalina e saborosa como a sua cajuína.

GIL ALVES DOS SANTOS (gilsantos,[email protected]), é aposentado do Banco do Brasil. Advogado militante da Justiça do Trabalho e da Justiça Federal e colaborador eventual do Blog do Elias Lacerda.

1 comentário

CÉSAR WILLIAM
Comentou em 14/08/21

ANAGRAMAS, HISTÓRIA E POESIA

Prestes a sair para um passeio com minha princesinha, Emily Clarice, eis que a tela do computador me chama e sou fisgado por alguns instantes por esta página eletrônica. Sinto-me novamente presenteado pelo bom discorrer do escritor Gil Alves dos Santos que nos dá uma lição de História, com direito a explanações de questões inusitadas acerca da bela Oeiras e também da elegantíssima capital piauiense.

Gil consegue utilizar-se de variadas funções da linguagem para desnudar o que sem seu teor didático seria difícil compreender o assunto que aborda. Utiliza-se de estilo próprio e parece que há anos estava aprisionado a missões que o impediam de revelar seu talento, enquanto escritor de alto nível que o é. Revela-nos tendência para crônica memorialista e de caráter histórico. Na função de pesquisador, não permite que o referencial engula o poético.

Como eu gostaria de estar em Timon. Como seria bom sentar para um bate-papo com Gil Alves, Weliton Carvalho, Nicolau Waquim Neto, Barripi, Elias Lacerda, Solange Leal, Osiel Silva, Ludwig, Ademar Sousa, Leal Filho, Bezerrinha, cada um com sua contribuição em torno do que soma para que o rico diálogo não suma.

Que Deus o continue abençoando, caro Gil. Lerei e relerei seu texto com calma, a fim de apreciar os detalhes da sua rica abordagem. Saúde, sabedoria, paz e poesia.

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