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Túnel do Tempo: O Azeite do “Dancinho”

POR GIL ALVES DOS SANTOS

1 – Azeite. Não irei ao mediterrâneo. Portugal, nem pensar! Não farei citações da Bíblia nem do Lobo Mau – água meu netinho, azeite, minha vozinha – pois, não escrevo para intelectuais e com a mais absoluta certeza eles não me lêem. Menos ainda para cultos e eruditos, pois, para estes e aqueles o mundo está nos seus respectivos umbigos.

2 – Com tais prolegômenos, posso afirmar que todo e qualquer timonense na casa dos sessenta ou setenta anos de idade sabe que quando falo de AZEITE estou a me referir da gordura originária do côco babaçu, substância sem igual para “estralar” um ovo caipira ou o frito dele; refiro-me ao preparo de um majestoso feijão misturado, e, para completar a mesa, um delicioso fígado, que foi o prato preferido do saudoso restaurante do Cincinato, o número um até mil novecentos e setenta. Para esses pratos, na verdade, bem distantes, não há outro tempero ou ingrediente que possa substituir o insubstituível azeite-de-côco babaçu.

3 – Quando mudei a rede de lona vermelha da Tapera a esta acolhedora Timon – para alguns, no que não concordo, um grego de Atenas – já encontrei o cidadão conhecido como DANCINHO LULA, na verdade, VENÂNCIO LULA, irmão do IÔIÔ CABEÇÃO, eternamente satisfeito, pois, não raro, estava a cantarolar, assobiando as coisas boas da vida, frequentando a cozinha e os pratos de boa parte dos habitantes desta cidade com o seu puro e bem cuidado azeite de côco babaçu, no período que vai de 1948 até 1968, quando Timon possuía, no máximo, 20 mil habitantes. Hoje, somos quase 200 mil almas.

4 – DANCINHO, com o rosto queimado de muitas luas, pois, às 4 horas da manhã já estava no seu ofício, foi, com certeza, o pioneiro, o grande empreendedor desta cidade. Um homem de visão, pois, além do azeite, foi o primeiro, com parte da borra do babaçu, o chamado ralão, a fabricar o sabão IRAJÁ, produto de boa qualidade e uma homenagem à sua propriedade homônima nos arredores do município e vendido em qualquer quitanda da cidade. Pedro Estevão, conhecido “magarefe”, já beirando os cem anos de idade, ainda bem lúcido, era o comprador da outra parte do ralão, um componente com alto teor proteico, base alimentar de seus suínos destinados ao abate e consequente fornecimento de carne à população desta cidade de Timon. E não ficou apenas nestes dois itens. Pois nada obstante a precariedade tecnológica da época, que era a do Gramofone, com o seu famoso cachorrinho, do disco de cera, teve ele a ousadia de, artesanalmente, instalar um serviço de auto falante denominado A VOZ CRISTAL, ao depois desenvolvido e adaptado pelo PADRE DELFINO, com A Voz de São José. Não guardo o nome do speak, talvez ele próprio fosse o locutor dessa modalidade de comunicação.

5 – Para ampliar os horizontes de excelente comerciante que era, um herdeiro dos fenícios, daí a explicação da preferência pelas vias marítimas do Rio Parnaíba, protegido do deus romano Mercúrio, é o que parece, comprou ou mandou construir um bote, uma canoa avantajada, batizada com o nome de Lulita, movido ora na vara, ora nos remos, que descia de Timon até Parnaíba, mesmo em boa parte da noite sob escolta de vaga-lumes, levando e vendendo azeite e sabão Irajá, ao longo das cidades ribeirinhas tanto do Piauí quanto do Maranhão, todas receptivas dos produtos inovadores de DANCINHO LULA. De volta, trazia o carregamento de sal e peixe. Sal, que era dividido com a cozinha e parte aos fazendeiros da região para suplementar a ração de seus animais. O peixe como alimento para muitos desta Timon.

6 – Não se pode esquecer do navegador e timoneiro Venceslau, com um enorme calo de sangue no peito motivado pelo esforço da vara no subir as águas pesadas do Rio Parnaíba (Obs. O motor de popa Johnson, vendido pela Casa Inglesa, ainda não havia chegado em Teresina). Na minha lembrança, o canoeiro Mano-véio foi coadjuvante de Venceslau, um hércules, da titânica vontade empreendedora de DANCINHO LULA, ladeado e ajudado por sua companheira RAIMUNDA DE ASSUNÇÃO LULA.

7 – Empreendedor e modesto, pois no opúsculo literário de sua autoria – VILA DE FLORES, de 1991 – ele morreu em julho de 1998 – no falar no exercício de suas atividades, traça apenas duas linhas, lacônicas, assim, verbis:- “Há três fábricas de extração de óleo babaçu, só uma, a menor, funciona regularmente.” Fica claro que “…a menor…”, talvez sejam os resquícios da originária indústria de DANCINHO LULA.

8 – Com certeza, não foi nada fácil para DANCINHO estabelecer-se como empresário nesta região árida, pouco favorecida pelo Poder Público. Sem ajuda alguma. Sem financiamento seja lá de quem tenha sido, construiu ele o seu pequeno império que, literalmente bem azeitado, lhe permitiu educar, formar todos os seus filhos, deixando-os aptos a suplantarem as vicissitudes da vida. Todos, com suas estrelas, absolutamente todos, estão mais do que bem – JOÃO FRANCISCO DE ASSUNÇÃO LULA, O TITIO, JOSÉ HENRIQUE DE ASSUNÇÃO LULA, SIDNEY LULA, AS PROFESSORAS MARIA DE JESUS LULA E MARIA DA CONCEIÇÃO LULA, A CEIÇA. Estas, sempre juntas, icônicas e santas figuras que dão vida e suas vidas à divulgação e prática da Fé perante a Paróquia de São José, aqui em Timon. Sem elas o mundo católico seria bem menor!

9 – Veja que ideia maluca: de posse de um bote, com dois ou três companheiros, remadores, desciam Parnaíba abaixo, algo bem próximo de 400 quilômetros, levando garrafas e litros de óleo de babaçu, pacotes de sabão IRAJÁ, até um porto seguro no litoral piauiense. Na volta, a embarcação estava abastecida de sal tanto para uso doméstico como para os animais dos fazendeiros da região. Era o gado que até então só tinha como alimento os arbustos espinhentos, cactos secos ou então a folhagem do juazeiro, de nós conhecidas na voz inesquecível de Luiz Gonzaga. Não era, como se vê, uma maluquice. Na verdade, um desbravador, em nada diferente de um Cabral, um Colombo, descobridores de novos mundos, novas terras, novas gentes. Também assim foi o DANCINHO, um homem honrado, de conduta inatacável! Verdadeiramente um desbravador.

10 – Tenho que resumir a vida e obra de DANCINHO em duas páginas de A-4. É um espaço pequeno para um grande cidadão, falecido em julho de 1998. Mas o Poder Público de Timon há de edificar um Panteão para que nele possa habitar os restos mortais de seus heróis, um dos quais há de ser o cidadão VENÂNCIO LULA, O DANCINHO.

11 – Este texto, agora revisado, está sendo republicado aqui no Blogue do Elias Lacerda, o paladino da verdade, a pedido de pessoas queridas e amigas, conterrâneas e contemporâneas.

 

Gil Santos é advogado e funcionário do Banco do Brasil aposentado.

1 comentário

RenatO
Comentou em 17/03/19

Muito interessante para a história de Timon

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