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Artigo- Degradação ambiental e atividade de caça no meio-norte do Brasil: “o caminho das pedras”

Iniciei meus estudos sobre Biodiversidade no Piauí no ano de 2003 durante a graduação em Biologia pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), quando pude estudar a fauna de mamíferos do Parque Nacional de Sete Cidades durante três anos. Obrigado prof. Dr. Marcos Pérsio, UFPI e amigos! Campos de 20 dias! Eram “paulera”!

Eu estudava os pequenos roedores e marsupiais conhecidos em nossa região como mucuras e catitas (invisíveis e por detrás dos bastidores, mas lá cumprindo seus papéis ecológicos na natureza) até os bichos de maior porte como macacos, porcos-do-mato, veados, gatos-do-mato e onças. Estes são alguns representantes dos mamíferos.

Mas o que quero destacar nesse texto não é mamífero em si, mas algumas experiências marcantes que tive nessa fase por interagir com as comunidades do entorno deste parque para informa-los dos trabalhos, sensibilizá-los e engajá-los na pesquisa. Isso foi de valor incalculável para minha formação e crescimento como profissional e cidadão.

Lembro que vários amigos “mangavam” e me diziam: tu gosta de se aparecer! É estrela! Trabalha no que não é teu trabalho! Não os culpo. Não faziam por mal: nem eu tinha a real dimensão da importância, do processo. Era natural e intuitivo querer fazer isso. Simplesmente eu começava a vislumbrar que sem a participação dos moradores de perto do parque seria muito difícil obter êxito na conservação dos mamíferos, principalmente dos animais alvos de caça: pacas, tatus, veados, porcos-do-mato e até os rabudos (ratos que ficam nas rochas junto com os mocós que parecem uns preás grandões).

Nunca vou me esquecer de que em certa ocasião, após trabalhar o dia inteiro com fauna e chegar exausto à sede do parque, à casa dos pesquisadores, ainda assim, fui fazer uma pequena apresentação juntamente com os gestores do Parque de Sete Cidades, conforme combinado, em uma comunidade afastada. Demoramos uns 40 minutos pra chegar e fui na carroceria de uma Toyota, por estradas estreitas e de terra, pulando mais que soim. Cheguei todo “escambichado”.

Já era início da noite. Deparei-me com uma tapera num morro, alumiada à luz de lampião. Cheiro de querosene. Era uma escola. Umas 10 ou mais pessoas bem simples, algumas idosas estavam ali naquela noite, depois de um dia inteiro de trabalho como eu, para uma aula diferente: mal sabiam que dariam aula também para um jovem aprendiz de pesquisador. Falei de modo mais simples possível sobre fauna, dos mamíferos, da importância do Parque, da relevância da ajuda deles (alunos/moradores) e de buscarmos alternativas, em conjunto, para que não houvesse mais caça e outros problemas mais. Ouvi bastante. Aprendi. Anotei. Ao final de tudo: bolo, cajuína e gratidão para o resto da vida.

Em outra oportunidade fui fazer o trabalho de sensibilização em outra comunidade do entorno do parque e quando cheguei ali pronto para prosear fiquei mudo com o que vi: o retrato da fome nua e crua, do descaso do poder público estampado no rosto de crianças e adultos, dos animais cujas costelas podiam se contar, das muitas moscas sobre feridas (físicas e emocionais). Não ousei falar uma palavra sequer sobre educação ambiental por empatia, por revolta, porque doeu muito. Eu tinha apenas 25 anos de idade. Como poderia falar de preservação para pessoas com a dor da fome? Retirei-me e chorei amargamente escondido. Isso também, meus amigos, e tantas outras coisas que vivi em minhas andanças, carrego comigo para não perder o fio condutor social que me guia como cidadão e profissional. Não ei de perdê-lo.

Ali entre alegrias e tristezas, entre risos e choros amargos, nascia intuitivamente a concepção do social, da importância dos projetos socioeconômicos, da sociedade imbricada com a natureza, com o meio ambiente. Ademais, que não fazia nenhum sentido eu ser uma figura exótica e distante, um pesquisador maluco que ficava perambulando pelas chapadas e florestas fazendo algumas coisas encobertas e atrás de onças. Não queria ser um Richard da vida! Agora depois de velho mais que nunca!

Eis a questão chave meus amigos e amigas: os meios, as ferramentas para que cidadãos e cidadãs de baixa renda e baixo grau de instrução não caçarem a fauna silvestre (pela fauna e por si, pois tem animais que podem transmitir doenças graves), não desmatem demasiadamente, pois quanto mais degradarem o meio ambiente pior será para si e para seus filhos, netos, bisnetos etc. Vocês entenderam? O descaso público aliado à arrogância acadêmica quanto mal trouxe… quanto mal ainda pode trazer?

Por isso humildemente defendo que o componente socioeconômico através das cadeias produtivas, de nossa sociobiodiversidade, do babaçu, carnaúba, buriti, amescla, e também da educação ambiental, as quais precisam estar aliadas aos projetos que tratem de Biodiversidade e recuperação de áreas degradas para resultados exitosos. Somente punir, multar e prender vai adiantar? Posso até estar enganado, mas acho que muito pouco. O “caminho das pedras” creio que os senhores já entenderam. Resta a você, meu caro, se engajar nessa luta e ajudar a colocar o componente social em prática. Você também precisa fazer parte disso. Obrigado pela leitura. Até mais.

 

Artigo escrito pelo Prof. Dr. Cleuton Lima Miranda

Biólogo, Mestre e Doutor em Zoologia pelo Museu Paraense Emílio Goeldi. Pós-doutor em Biodiversidade e Conservação Animal pela Universidade Estadual do Maranhão. Professor formador dos cursos de licenciatura em Biologia da Universidade Estadual do Piauí e EAD da Universidade Federal do Piauí. Professor colaborador Universidade Estadual do Maranhão. Pesquisador colaborador do comitê da bacia hidrográfica do Rio Parnaíba. Militante PCdoB diretório de Timon. Cidadão timonense.

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