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Jardineiros autônomos de cemitério em Brasília ganham até 7 mil reais por mês

Papel deles é manter jazigos limpos, com grama aparada e flores vistosas. Contrato por sepultura custa R$ 70 por mês; profissionais têm liberdade para assumir quantos quiserem.

Jardineiro autônomo cuida de plantas em jazigo de cemitério no DF (Foto: Raquel Morais/G1)

Jardineiro autônomo cuida de plantas em jazigo de cemitério no DF (Foto: Raquel Morais/G1)

Engana-se quem acredita que trabalhar em cemitério é sempre a última opção. Jardineiros autônomos que fazem manutenção nos túmulos do Campo da Esperança, no centro de Brasília, afirmam preferir o emprego atual aos anteriores. Poder fazer os próprios horários, estar em um ambiente considerado tranquilo e faturar até R$ 7 mil por mês estão entre os fatores que consideram atrativos.

O grupo formou até um “sindicato” – a Associação dos Jardineiros do Cemitério. O presidente da organização, Valdir Pereira Silva, conta que atualmente há 280 profissionais cadastrados. O papel deles é manter os jazigos limpos, com a grama aparada e com as flores (quando solicitadas pelas famílias) vistosas.

Cada contrato custa R$ 70 por mês, e os jardineiros têm liberdade para assumir quantos quiserem. Os acordos são fechados diretamente com os “proprietários” das sepulturas. Os profissionais acabam se aproximando das famílias e, com frequência, vão buscar os pagamentos em casa.

Responsável pelos cuidados de 80 jazigos, Silva trabalha no cemitério desde 1991. Ele nega ter medo do local e do serviço — por um período, inclusive, fazia as atividades à noite.

  Valdir Silva, um dos jardineiros autônomos do Campo da Esperança da Asa Sul, em Brasília (Foto: Raquel Morais/G1)

Valdir Silva, um dos jardineiros autônomos do Campo da Esperança da Asa Sul, em Brasília (Foto: Raquel Morais/G1)

“Fico orgulhoso quando uma família chega aqui, encontra a sepultura bem-cuidada e se sente mais confortada”, explica o homem, que relata visitar cada túmulo três vezes por semana. “Eu acho que esse respeito que a gente oferece faz muita diferença.”

“Cada família que traz um corpo para cá tem um sentimento, porque foi um acontecido, um assassinato, o trânsito. Cada pessoa se lastima de um jeito diferente. É o momento da dor seca. Tem quem chore, quem saia correndo.”

Trabalho de respeito

Também prestador de serviços no local, Antônio Eduardo Vieira conta que trocou um emprego de carteira assinada como vigilante para ser jardineiro do cemitério há 21 anos. Foi graças ao que recebe enquanto responsável pelos cuidados com 60 jazigos que conseguiu sustentar a casa em que vive com a mulher e as duas filhas.

A rotina não é leve: ele trabalha de segunda a sábado, entre 6h30 e 16h. Enxada, tesoura e água são seus maiores “companheiros”. “Nunca enfrentei preconceito na família nem de clientes por causa do trabalho.”

“As famílias ficam muito agradecidas por encontrar tudo bem arrumadinho. Só me dão agradecimento, que ficam satisfeitos de nunca achar nada a desejar, que é sempre feito tudo a tempo e a hora”, afirma.

“Nunca fui de perder serviço, só de ganhar. Cada serviço que eu pego é único. Aqui é um lugar de muito respeito, porque é um lugar de sentimento. E isso é o que eu tenho.”

Antônio Vieira, jardineiro autônomo do Campo da Esperança da Asa Sul, em Brasília, durante o trabalho (Foto: Raquel Morais/G1)

Antônio Vieira, jardineiro autônomo do Campo da Esperança da Asa Sul, em Brasília, durante o trabalho (Foto: Raquel Morais/G1)

Serviço personalizado

Preferindo não se identificar por medo de os clientes poderem se magoar com a exposição, um jardineiro relatou ao G1 ter mais de 100 contratos e ser feliz com o trabalho. “Aqui todo mundo se dá bem e somos reconhecidos por quem contrata a gente. Não tem perturbacão.”

De acordo com o presidente da Associação dos Jardineiros de Cemitério, há inclusive profissionais que pegam 200 contratos. A média, porém, é de 40. A manutenção dos túmulos não é exigida dos donos pelo Campo da Esperança, e as famílias têm ainda a opção de contratar da própria administração, por R$ 51.

Para Silva, a diferença é que os profissionais autônomos oferecem um serviço mais “personalizado” e “pessoal”, além de aceitarem pagamentos de dois em dois meses e até anuais. Às famílias que gostam de plantas, por exemplo, eles oferecem palma e pingo de ouro para ornamentar as lápides. As que querem flores específicas podem acioná-los para buscar em casa.

O jardineiro lembra que passou a entender melhor o sentimento das famílias depois de ter um tio – com quem morou quando se mudou do Ceará para o DF – enterrado no local. Depois do parente, Silva viu uma tia e dois primos também serem levados para o mesmo espaço.

“Não foi difícil porque hoje eu já entendo o que é a vida e o que é a morte. Claro que quando morre você sente aquele abalo, mas, infelizmente é o caminho de todos. É claro que dói, mas você sabe que vai ter que acontecer.”

  Árvore florida sobre jazigos do cemitério da Asa Sul, em Brasília (Foto: Raquel Morais/G1)

Árvore florida sobre jazigos do cemitério da Asa Sul, em Brasília (Foto: Raquel Morais/G1)

Medo?

Os jardineiros são categóricos ao negar que se sentem apreensivos pelo trabalho no cemitério. “Aqui não faz medo, não. Quem está dentro da cova não sai mais. Daquele portão para lá eu morro de medo. Aqui no cemitério, não”, afirma Silva.

Vieira também diz não ver motivos para ter algum pavor do cemitério. “Falam nas lendas daqui, mas eu nunca vi nada. Nunca me aconteceu nada estranho. Sempre foi tranquilo.”

Entre as “histórias” do Campo da Esperança há o relato de um redemoinho que teria se formado na encruzilhada próxima à ala dos pioneiros e o caso de uma suposta fantasma que teria pego um táxi no cemitério rumo à Asa Sul — segundo os jardineiros, o motorista contou que ela desceu do carro alegando que buscaria dinheiro no apartamento e não voltou. Estranhando a demora, o homem teria descrito a moça ao porteiro, que a identificou como uma ex-moradora que havia morrido havia meses.

Silva afirma que um dos casos aconteceu com ele. “Eu podava grama por volta das 17h30. Havia acabado de chover. Quando olhei para a pista, descia uma mulher alta, morena. Ela ia caminhando de lado, bem rapidamente. Olhei para baixo e depois de volta, ela sumiu. Para mim era uma alma. Falei com os colegas vigilantes, procuraram e não acharam.”

Jazigos com flores ornamentais no cemitério Campo da Esperança da Asa Sul, em Brasília (Foto: Raquel Morais/G1)

Jazigos com flores ornamentais no cemitério Campo da Esperança da Asa Sul, em Brasília (Foto: Raquel Morais/G1)

O cemitério

Durante as obras da construção de Brasília, em 1957, morreu o primeiro candango, em uma briga de rua. Só então as autoridades se deram conta de que ninguém havia pensado na urgência da construção de um cemitério. A falta desse espaço foi notícia em diversos jornais à época, e os corpos precisavam ser levados para Luziânia (GO).

Em resposta às críticas, Israel Pinheiro anunciou a construção do Campo da Esperança e ressaltou que os mortos seriam enterrados na grama, com lápides simples, no modelo norte-americano: cemitério parque. A área escolhida seguiu indicação do urbanista Lucio Costa: a 916 Sul.

Lendas da cidade apontam que o local guarda a cova de uma escrava alforriada e benzedeira que fazia milagres. Ela teria morrido de hanseníase.

A inauguração do cemitério ocorreu em janeiro de 1959. Para a ocasião, chegou do Pará o corpo de Bernardo Sayão, pioneiro que ajudou a construir a cidade. Atualmente há mais de 173 mil pessoas enterra das no local.

 G1 Brasília

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