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Ausência

Por: Daniele Lima

É aqui onde se processam todas as coisas. Flores brancas e seus caules sobre a mesa. Seguro em minhas mãos todas as renúncias e despedidas que fui convidada a testemunhar. Temo que elas pesem mais que meu corpo. Tudo em completo silêncio. Algo apenas vibra e percorre a maior lacuna de todas. Ouço o completo passar das horas, acompanho o ruído do sol, está anoitecendo mais cedo, dias que perdem a semelhança com dias. Luzes e sirenes que não sabia que podiam pertencer a este lugar. O que sinto talvez pudesse ser nomeado em outro continente, em outro tempo, quando se falasse outro idioma. Agora todas as coisas que haviam aqui estão na terra, perdidas.

No calendário as estações morrem e renascem em perfeita ordem. Tudo na mais lírica concordância. Mas fora da parede e de sua rigidez, aqui neste mundo que estou, há outros mistérios indissolúveis.

Estou cada dia mais longe, cada dia mais. Não temos outras formas de seguir em frente senão pela rua que desenhamos na nossa mente. Todo o resto parece sem luz, sem brilho e sem chegada.

Ofuscar o futuro pela presença gloriosa do passado. A brusca retirada. O marítimo passo. A ilusão e a tortura de mãos dadas pronunciando palavras rústicas. Para sempre me aventurar no mais perfeito nada. Resta que todos tomem seus assentos, que bebam seu café, que façam parte dessa cena. E que para todos aqui, se encerre, amanhã mesmo, a peregrinação da dor. Entre pó e vapor eu caminho. Sou solitário, sombrio e pouco falante. Não sinto qual meu erro para chegar até aqui e mais longe. É vasto e seguro meu abismo. Sem frestas, sem ecos, sem nada para me consolar enquanto sussurro sozinha seu nome. Durante dias e dias não houve nem vento. Nem tempo, nem estações, nem perfumes, nem prata e nem bronze. Apenas o amanhecer e sua retumbância. E seu desdém e sua ira. E sua majestade, sua plena e soberba vida. E eu observo as teias das dóceis aranhas e seu trepidar delicado nos cantos da alma. Sob o sol, agora douradas, como se fossem as próprias teias da vida. Aquelas das quais ninguém sabe nada, ninguém suscita as entranhas. E este caminho me vigia a cada dia, a cada hora. Floco de neve afundando no abismo.

Todas essas escolhas e esses móveis velhos e sujos que podiam ser largados para sempre numa história qualquer. A minha história. Ironicamente sempre capaz de se manter genuína. Este rio corre como se fosse o primeiro: imperfeito. Não consigo mais me queixar de nada. O silencio é mais que bem-vindo. E tudo se repete, tudo caminha para o próprio reflexo, estamos deslizando num espelho quebrado: por isso sempre estamos sangrando. Em todos os lados, em todos os atos.

E não se é feliz. Esse pessimismo parece um signo, um grande altar. Francamente. Tudo está desarrumado por dentro, espaços vazios que não sei mais preencher. Nem serão pois nunca estiveram. Riachos cheios de cinzas, estou encurralada entre duas covas, entre dois mundos. Não sei se resta algo, ou tudo, desde o início, era definitivo. Minhas janelas estão cobertas de vozes e olhares. E tua voz é a única que falta, que só se repete na minha mente. Sem grandes tropeços, sem grandes sobressaltos. A trilha da saudade está nas tuas mãos. A ausência parece um tipo de torpor. Uma alucinação. Uma bifurcação na raiz da alma, por onde todos pegam o caminho errado.

 

Daniele Lima é jornalista, timonense do bairro Santo Antônio e vez por outra escreve artigos reflexivos neste eliaslacerda.com

Email: [email protected]

2 cometários

Bruna
Comentou em 21/11/21

Maravilhoso!

Ricardo P Nines
Comentou em 22/11/21

Belo e marcante texto. Com uma aura comovente de grande profundidade, como os grandes poemas líricos e merecedores de nossa reverência e admiração.

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