TÚNEL DO TEMPO – A VASSOURA DA PRAÇA SÃO JOSÉ, DE TIMON

 

POR GIL ALVES DOS SANTOS

1 – É fato de que só não muda de ideia quem não tem ideia para mudar, teria dito Apparício Torelly, conhecido como Barão de Itararé. Levado por esse impulso, e corrigir minha mediocridade incorrigível, já não mais vejo a vassoura e seu complemento, o cabo, como meio de transporte das bruxas, que, inclusive, tem data no calendário, 31 de outubro, o HALLOWENN.

2 – E por que mudei? Eis os fatos. Eu estava sob as figueiras plantadas ao lado da Igreja de São José, pois, como todos sabem sou timonense, tomando umas geladas com os manos Beto, Bené e o sobrinho José Wilson, quando no pedaço de rua, nas imediações da área da Prefeitura, lá ia e vinha uma senhora, vestida num nada confortável traje amarelo cuidando, com sua vassoura, de varrer a sujeira lançada por nós, mal educados, ao chão que ela, com paciência, o tornava limpo. De tão deseducados que nem ao menos temos a coragem de louvar o trabalho de quem, como a anônima varredora, se converte em instrumento de limpeza da nossa cidade, suja por culpa nossa. Não somos melhores do que uma varredora. Ela há de varrer também as nossas consciências!

3 – Chegando – o gerúndio é inevitável – em casa consultei os alfarrábios: Crestomatia, Secretário Universal, Almanaque do Capivarol, e nada de vassoura e menos ainda de varredor. Mas sendo certo que ela recolhe as anotações feitas e que deseducadamente atirei ao chão, então posso dizer que a gentil senhora também varre os meus pensamentos, páginas e registros

esquecidas, soltas ao chão. Pensei: então a vassoura já não é mais um espantalho, cavalo ou foguete de bruxa? Será que elas também trabalham à noite? Com certeza, sim! Pois foi pensando na varredora da noite que Ary Barroso fez os seguintes versos da Canção Folha Morta:- “Já tive amores, tive carinhos, já tive sonhos […] Hoje sou folha morta que a corrente transporta.” E Anísio Silva, como não ser lembrado em Desencanto? “Há folhas mortas soltas pelo chão/Há sombras tristes na solidão.” Tem ainda Roberto Carlos, em Folhas de Outono:- “As folhas vão caindo/E eu choro baixinho.” E quem as recolhe? A varredora com sua vassoura.

4 – Luiz Gonzaga cantou e gravou “Cabo de Vassoura”, letra de Israel Luiz, mas com conotação de valentia, brabeza, submissão. Aqui é diferente. É a vassoura e a varredora como recipientes de mágoas, frustrações, abandono, de pessoas que, como folhas secas, também rolam pelo chão, como fonte de inspiração para o boêmio, com ou sem violão; o farrapo humano que tem o banco da praça como abrigo. Preste atenção, amigo leitor ou leitora, nos primeiros versos da canção “Porta Aberta”, de Vicente Celestino, que muito escutei no Serviço de Auto Falante “A VOZ DE SÃO JOSÉ”, do saudoso e inesquecível Padre Delfino, assim:- “Vinha por este mundo sem um teto/Dormia as noites num banco tosco de jardim/Sem ter proteção de um afeto/Todas as portas eram fechadas para mim.” Pois a sujeira de minha rua, as folhas caídas ou intencionalmente atiradas, uma flor pisada, um recado perdido, uma ponta de cigarro de alguém que esperou alguém, mas não apareceu, são recolhidas pela varredora, e, como ilusão, atiradas no tambor que serão transformadas em cinzas nalgum lugar desta nossa Timon.

5 – Varredora, de quem não sei o nome, queira perdoar a minha falta de educação, pois, nem ao menos

perguntei o seu nome. Varredoura é uma embarcação marítima e também rêde de pescar.

Gil Alves dos Santos ([email protected]) é um colaborador do Blog do Elias Lacerda nas horas vagas. É advogado e aposentado do Banco do Brasil.

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