A importância socioeconômica de plantas da Amazônia e Mata Atlântica em nossa flora regional: a amescla e o breu branco

Gostaria de tratar sobre duas espécies típicas de biomas florestais, Amazônia e Mata Atlântica, mas que ocorrem na região meio-norte ao longo dos Cerrados, conhecidos por aqui como chapadas: a amescla (Protium heptaphyllum) e o bacuri (Platonia insignis). A primeira espécie ocorre tanto na Amazônia quanto na Mata Atlântica, ao passo que a segunda se distribui predominantemente pela Amazônia, apresentando seu limite de distribuição leste no meio-norte do Brasil. A distribuição exata das duas espécies não é precisa, sendo importante estudos científicos e técnico-científicos que embasem seu uso sustentável no meio-norte.

Ambas possuem valor econômico, podendo ser utilizadas para geração de rendas alternativas para o povo de Timon e cidades próximas, mas em menor escala que a dos babaçuais e buritizais, já tratados em textos anteriores, o que não diminui as suas importâncias em vários aspectos, não só econômico.

Vamos conhecer um pouco sobre a amescla e o breu branco? O breu branco é uma resina obtida da casca do tronco de uma planta que ocorre às margens de cursos d’água, na beira dos riachos de nossa região, sendo chamada por aqui de amescla. Os frutos dessa árvore que pode alcançar entre 10 e 20 m de altura e até caule com até 60 cm de diâmetro é bastante apreciada por várias espécies de pássaros que podem atuar como dispersores de sementes. A amescla se adapta bem a ambientes secundários (já alterados), servindo bem a programas de replantio de matas ciliares.

O breu branco após retirado da árvore se solidifica e pode ser utilizado na indústria para produção de incensos, óleos naturais e até mesmo perfumes, apresentando cheiro

bastante agradável. Mais uma vez cito a Natura que tem a linha EKOS que contempla o breu branco (vou começar a cobrar “merchandising” para o Instituto Inovação Natura).

São várias as possibilidades de canais de comercialização para este produto de nossa biodiversidade, sendo comercializado até mesmo no mercado livre. No entanto, as amesclas ocorrem em nossa região nas tais das matas ciliares à beira d’água, ou seja, áreas que são geralmente muito desmatadas. Segundo relatos de moradores mais idosos da zona rural de Timon, no passado essa planta era bem mais abundante que atualmente e o motivo desse “desaparecimento” seria o alto grau de desmatamento de nossas matas ciliares.

Um fato interessante a compartilhar com você, caro leitor, foi que por minhas andanças por Timon ´para falar sobre cadeias produtivas e sua importância para nossa sociedade, seja na zona urbana ou mesmo na rural, raramente alguém sabia o que era amescla, apenas os mais velhos na zona rural, demonstrando quão pouco conhecemos sobre nossa exuberante biodiversidade e de como podemos utiliza-la de modo sustentável para melhoria de qualidade de vida dessa geração e das que estão por vir. Meus parentes no Banco de Areia e outros poucos moradores do 89 e outras localidades foram os únicos que sabiam e até me arranjaram um pouco da resina e frutos, que até utilizei em palestra que ministrei em evento no IFMA, Timon, sobre cadeias produtivas. Educação ambiental em espaços formais e não formais podem nos ajudar a diminuir essa problemática.

Não temos estudos técnicos que embasem políticas públicas para proteção de nossas matas ciliares e nascentes, mas acredito que a amescla deva ser considerada como espécie de grande importância para ser inserida em futuros planos de recuperação de nossas matas ciliares e nascentes (produção de mudas e replantio com base em critérios técnico-científicos sólidos) com base em experiências em outras regiões.

Em minha humilde opinião a amescla é, portanto, outra espécie de nossa biodiversidade regional que pode ser trabalhada na forma de associações e/ou cooperativas de modo paralelo com outras cadeias produtivas, como a do babaçu e, principalmente, com a do buriti, contribuindo para melhoria de qualidade de vida de nosso povo.

Ademais, podem ser empregadas em futuros projetos de reflorestamento. Fica uma sugestão para a Compainha de Desenvolvimento dos vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF em Teresina) que já vem realizando um belo trabalho de recuperação de nascentes com enfoque para as nascentes do Rio Parnaíba e cuja continuidade para essa região e outros pontos dessa bacia é crucial para o “velho monge” e seus tributários.

No próximo texto trataremos especificamente sobre um fruto bastante saboroso, mas com muitos gargalos ou problemas para cultivá-lo e utilizá-lo em maior escala para indústria de alimentos e cosméticos, o bacuri. Muito obrigado pela leitura. Sugestões e críticas são sempre bem vindas!

Prof. Dr. Cleuton Lima Miranda

Biólogo, Mestre e Doutor em Zoologia pelo Museu Paraense Emílio Goeldi. Pós-doutor em Biodiversidade e Conservação Animal pela Universidade Estadual do Maranhão. Professor formador dos cursos de licenciatura em Biologia da Universidade Federal do Piauí. Professor colaborador Universidade Estadual do Maranhão. Pesquisador colaborador do comitê da bacia hidrográfica do Rio Parnaíba (Teresina). Cidadão brasileiro e timonense.

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