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Espelho – uma crônica de autoria timonense

                                                           

 

                                                                              Espelho

Por: Daniele Lima

Através do espelho há mundos diferentes do nosso. Pelo espelho a imagem dos anos se
deposita calmamente no nosso rosto. Pelo espelho temos a familiar sensação de que
vemos a nós mesmos sem máscaras, sem percepções alheias, despidos de medos e
fantasmas. Pelo espelho, imaginamos nos conhecer. Pelo espelho somos seres poéticos,
proféticos, com nossas marcas refletindo em milhares de ângulos e em cada ângulo existe
uma história, uma cena, uma leitura de nós mesmos.

Pelo espelho não sobram sombras, há caminhos abertos num tempo contado de outra
forma, há continentes submersos e séculos desconhecidos, tudo é de estática
contemplação, tudo se desfaz como havia sido feito.

Pelo espelho, quiséramos nós ter outra face e disfarçar todas as nossas incertezas e
julgamentos proeminentes. Pelo espelho estamos face a face com tudo tido, esperado e
feito. Pelo espelho a imaginação ganha vida: soltam-se os homens para que corram pelo
metal polido felizes e sem preocupações, desfrutando como deveriam de seu estreito
tempo na terra. Sob o metal que nada reflete tudo pode ser feito.

E na imagem super nítida, contemplar a você mesmo onde gostaria de estar agora, ou
como ou com quem. E aproveitar por alguns instantes, sem frustrações, uma outra vida
bem mais serena e dócil. Quiséramos nós, ter, frente ao espelho pelo menos o mínimo de
tempo para sonhar e sonhando crer que éramos nós mesmos. E seguir frente à nossa face,
nossa jornada repleta de sentidos e nuances num caminho muito mais nosso.

Pelo espelho sentimos que somos iguais ou talvez outros. Nossos olhos observam atentos
a imagem que se forma, real ou reflexo daquilo que por anos foi dito sobre nós. Seríamos
nós, então, nós mesmos? Quem é a pessoa que nos olha de frente, parada, testemunhando
cada alegria, vibração, repúdio, dor e melancolia? Nossa face que tudo sabe, poderia se
manter conosco o tempo todo nos lembrando de quem somos e o que queremos de verdade
fazer?

Pelo espelho, a tinta preta se dilui, descortinando da opacidade nossos desejos. Pelo
espelho somos mais capazes de sentir nossa tragédia pessoal, nossos detalhes mais árduos
e tudo aquilo que vive sendo reprimido. Pelo espelho somos outros, mais cheios de nossa
própria essência. O quanto seria extraordinário ter nossa essência num frasco, como que
de perfume, e sempre usá-la sob o risco de tornamo-nos outros ou exalar uma
personalidade que não nossa. Sem a sua essência você nem sequer seria reconhecido. Mas
o problema está aí: essa parte fica no espelho e de tão delicada como uma fina película de
vidro apenas reflete nossa verdadeira imagem por alguns instantes.

 

Daniele Lima é jornalista e mora em Timon

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