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Clínica São Rafael

Os tatus como reservatórios naturais de doenças e sua relevância nos ambientes naturais

Artigo escrito pelo Prof. Dr. Cleuton Lima Miranda

Para o Brasil os cientistas reconhecem 11 espécies de tatus. Temos duas espécies ameaçadas de extinção: o tatu canastra (o maior dos tatus atuais, cujo adulto chega a quase 30 Kg) e o tatu-bola (mais ou menos 1 Kg), que foi símbolo do fiasco da Copa do Mundo de Futebol no Brasil.

Para região de Timon e cocais devem ocorrer certamente o peba, o tatu-galinha ou asa branca e o rabo de couro. É pouco provável que ainda tenha o tatu-canastra pela caça excessiva. Estou supondo isso com base em mapas de artigos gerais e para outras regiões do Brasil e em conversas com os mais antigos da zona rural de Timon (caçadores ou ex-caçadores) porque lamentavelmente não temos estudos técnico-científicos.

Creio que o caro leitor já tenha ouvido falar no peba, no tatu-galinha ou asa branca e nos outros dois que mencionei. São animais bastante caçados no Brasil e em nossa região. A carne do tatu-galinha ou asa branca é muito apreciada em todas as regiões, se igualando à da paca. O peba é menos apreciado porque muitos acham que ele se alimenta de defuntos. Veja bem. Não é bem assim. Eles se alimentam, na verdade, das larvas que consomem os corpos dos cadáveres em decomposição. Aliviou?

Os tatus, assim como outros grupos de nossa fauna silvestre, são fruto de milhares e milhares de anos de evolução. Desempenham seus papéis ecológicos na natureza, nos ambientes naturais e, obviamente, não estão ali à toa, contribuem com vários processos ecológicos e de regeneração das florestas. Tatus ajudam e muito a controlar populações de formigas e cupins, sendo seus predadores naturais, ao mesmo tempo que servem de alimento para felinos de maior porte, como a suçuarana ou a onça-pintada (cadeias ou teias alimentares) e até seus restos mortais são aproveitados pela natureza.

Mais uma vez enfatizo que, ao longo da evolução, vários microorganismos (organismos que não vemos a olho nu) como bactérias, alguns fungos e vírus evoluíram juntamente com nossa fauna, com nossa flora. Alguns tatus podem ser reservatórios naturais de doenças que afetam muito o homem como uma micose pulmonar bastante grave (causada por fungo), a hanseaníase (lepra que é um termo em desuso e inadequado) e mesmo a doença de Chagas. No Piauí foram relatados mais de 100 casos de infecção pulmonar por fungos em 40 municípios, todos associados à caça de tatus.

Durante milhares e milhares de anos se estabeleceu uma “relação ecológica harmônica” ali onde esses microorganismos ocorrem no interior desses animais, mas não causam danos a eles. No entanto, a partir do momento que desmatamos demasiadamente nossas florestas, os nossos Cerrados, derrubamos nossas “barreiras naturais” e entramos em contato de modo inadequado com microorganismos que pouco ou nunca tiveram contato com nossos organismos e, portanto, não temos essa “relação harmônica”, ainda não temos anticorpos, defesas contra esses microorganismos. Ficou claro? Estou falando de doenças já conhecidas. E para as desconhecidas? A situação pode ser bem mais grave. Fundação de Amparo à Pesquisa do Maranhão! Fundação de Amparo à Pesquisa do Piauí (praticamente sem editais há tempos imemoriais)! Pesquisadores! Iniciativa privada! Todos nós! Estudos urgentes e financiamentos para conhecermos melhor nossa biodiversidade, de modo a usa-la de modo racional e para saúde pública!

Caçadores ao entrarem em contato com o sangue do animal abatido se tiverem feridas podem se infectar. O consumo de carne de alguns animais silvestres também pode transmitir doenças. Até o manuseio da “carapaça”, dos “cascos” do tatu pode transmitir doenças, caso haja ferimentos na mão das pessoas e restos de sangue na estrutura que reveste e protege o animal.

O que fazer então, professor? Vamos dizimar os tatus e resolvemos a problemática? De modo algum! Basta deixar os tatus “quietos” lá nos ambientes naturais deles que você não terá nenhum problema! Lembre-se: quem está indo destruir os ambientes naturais, caçar os animais e entrar em contato com dinâmicas naturais que pouco ou nada conhecemos somos nós e não eles. Portanto, quanto menos desmatarmos, quanto mais evitarmos contatos com animais silvestres (até manuseá-los sem necessidade e proteção adequada) e mesmo evitar abate-los para se alimentar melhor será para todo mundo.

Continuaremos tratando da degradação ambiental e doenças, trazendo exemplos de grupos de nosso país e região. Obrigado pela leitura. Até mais.

Prof. Dr. Cleuton Lima Miranda

Biólogo, Mestre e Doutor em Zoologia pelo Museu Paraense Emílio Goeldi. Pós-doutor em Biodiversidade e Conservação Animal pela Universidade Estadual do Maranhão. Professor formador dos cursos de licenciatura em Biologia da Universidade Federal do Piauí. Professor colaborador Universidade Estadual do Maranhão. Pesquisador colaborador do comitê da bacia hidrográfica do Rio Parnaíba (Teresina). Cidadão brasileiro e timonense.

2 cometários

Francineide de Melo Oliveira Nascimento
Comentou em 02/04/20

Parabéns doutor achei muito interessante não irei comer mais tatus prometo

CLEUTON LIMA MIRANDA
Comentou em 23/05/20

muito obrigado, minha amiga. Fico feliz que a litura tenha diso útil. Isso… evite ao máximo. Vamos deixar nossos tatus na natureza cumprindo os papeis deles. Espero que não precise comer caça pra sobreviver! Um abraço.

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