A obra de uma rampa no município de Parnarama como a ponta de um iceberg: os graves problemas enfrentados pelo Velho Monge

Imagem que representa o processo de desmatamento, erosão e assoreamento enfrentado pelo rio Parnaíba, principalmente em seu médio curso. Crédito: Gil Oliveira.

A bacia do Rio Parnaíba (o rio e seus tributários) é uma das mais importantes do Brasil, sendo a segunda maior do Nordeste, passando pelos Estados do Ceará, Piauí e Maranhão, com uma extensão de 333.056 Km2 (4% do território nacional), incluindo áreas de 220 municípios piauienses e 35 maranhenses. Por onde passa se depara com áreas originalmente recobertas pelos Cerrados, mistura de Cerrado/Caatinga, Mata dos Cocais e vegetação litorânea, ou seja, com grande biodiversidade (diversidade de formas de vida, como fauna silvestre, plantas e fungos).

No entanto, infelizmente, o grau de conhecimento sobre a biodiversidade da região do Rio Parnaíba é ainda muito superficial. Mesmo o conhecimento sobre a flora, com maior produção quando comparado à fauna, é insuficiente para dar direcionamentos seguros para execução de ações e políticas públicas que visem a conservação da biodiversidade regional e seu uso sustentável pela sociedade.

Instituições renomadas e pesquisadores gabaritados nós temos em ambos os estados, Piauí e Maranhão. O que falta então, meu amigo? Adivinhe só: investimentos adequados em pesquisas. Será que a pandemia que nos assola mudará esse quadro? Senhores deputados federais do Maranhão, por obséquio, sigam o exemplo dos senhores deputados do Piauí que destinaram recursos vários a CODEVASF em Teresina para projetos de regeneração etc. A CODEVASF Maranhão não tem praticamente recursos para executar projetos relevantes para várias bacias, incluindo a do Itapecuru, cujas águas abastecem 80% da população de São Luís. Reiterando: 35 municípios do Maranhão estão na bacia ora citada!

Participei recentemente da reunião do comitê da bacia do Rio Parnaíba em Teresina encabeçado pela Compainha de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (CODEVASF Teresina) que tem realizado trabalhos de ótima qualidade, porém mais focados nos recursos hídricos. Um diagnóstico para a bacia se encontra em processo de finalização e será, sem dúvida, de grande valia para direcionar alocação de recursos e ações mais eficazes. Porém, em conversa com próprios representantes da CODEVASF em Teresina expressei a preocupação com a falta de estudos sobre a biodiversidade associada à bacia, ao rio Parnaíba.

Em meu entendimento, não se pode pensar em políticas públicas eficazes para preservação deste rio e sua bacia que não contemplem, de modo expressivo, fauna silvestre, flora regional e seu uso racional. Vou além: condições socioeconômicas de milhares e milhares de piauienses e maranhenses que habitam as adjacências desse rio e seus tributários, dependendo do Velho

Monge para sobreviver. A proposição de ações que visem conservação da biodiversidade e melhoria da qualidade de vida do povo da região em conjunto é patente.

Outro ponto importante a destacar é que o Parnaíba não “resistirá” sem as matas ciliares impedindo processos de erosão e assoreamento do rio (leito do rio sendo soterrado), além da perda da biodiversidade terrestre e aquática. Tampouco sem vários grupos da fauna silvestre que participam dos processos de dispersão e predação e sementes, contribuindo para regeneração das florestas e equilíbrio ecológico. Muitos são os “serviços prestados” por diversas espécies de plantas, fungos e animais silvestres. Há novas espécies. Há curas. Há doenças. Há muitas descobertas importantes por serem feitas.

O rio Parnaíba é dividido em três segmentos: alto, médio e baixo Parnaíba. Vou tratar da porção mais populosa e obviamente poluída, o médio Parnaíba, onde se encontram Teresina e Timon, além de outros municípios menos populosos como Palmeirais, Matões e Parnarama. Vários estudos técnicos de ótima qualidade desenvolvidos pela SEMMAR Piauí, alguns destes em colaboração com a CODEVASF em Teresina, mostram um quadro dramático do rio no seu médio curso. O caderno da bacia do Rio Parnaíba publicado pelo Ministério do Meio Ambiente, salvo engano em 2006, é ótimo material também.

Eu estava ansioso para chegar aqui. A região onde se encontram Palmeirais do lado piauiense e Parnarama do maranhense é extremamente preocupante pelo grau de desmatamento das matas ciliares, de erosão e assoreamento. Não vou trazer uma visão prístina e puritana de natureza. No entanto, é inconcebível que a situação permaneça como está, aliás, que se agrave a cada dia sem que políticas públicas direcionadas sejam tomadas por parte de ambos os governos, do Maranhão e Piauí, do governo federal, das autoridades competentes.

Na realidade, problemática de tamanha proporção e gravidade requer engajamento de vários atores, das secretarias de meio ambiente, do ministério público, dos ambientalistas, das ONG’s e, sobretudo, do povo das cidades onde o Velho Monge e sua biodiversidade correm sérios riscos a médio e longo prazo. Que fique claro: a sociedade também será drasticamente penalizada.

Somente em meu pós-doutoramento, sobre diversidade de mamíferos e evolução da bacia do Rio Parnaíba, no ano de 2018, encontrei uma nova espécie de mamífero para a Ciência que está em processo de descrição coletado perto de Palmeirais e uma potencial segunda nova espécie entre Matões e Parnarama chamados de ratos-da-taboca (pesam mais que 500g e dependem dos tabocais e das matas da beira d’água pra sobreviverem). Já busquei recursos financeiros para irmos atrás de mais exemplares e registros dessas duas novas espécies e para

checarmos a possibilidade de outras, mas sem sucesso. Descrição de nova espécie não dá voto e atrapalha obras. Acredita que já ouvi várias vezes isso e de parlamentares, de presidente de agência de fomento à pesquisa? Acho que sim, não é? Se ouvimos direto nãos para cadeias produtivas do babaçu, do buriti… imagine então para ratos, macacos, felinos… que no fim é pro bicho sapiens também.

A questão de um aterro em Parnarama, apresentada aqui neste portal em duas matérias tem suscitado discussões e até envolvimento do Ministério Público. Segundo parecer técnico da SEMA Maranhão tal aterro não adentrará o leito do rio e já está dentro de perímetro em que atividades podem ser realizadas segundo licença ambiental. Legalmente tudo certo. Porém, quero lhe chamar atenção para algo muito além, que antecede e muito essa rampa, esse episódio e que continua acontecendo agora: a erosão, o desmatamento, a perda de biodiversidade, a falta de projetos socioeconômicos e ambientais, a falta de educação ambiental, a falta de diálogo com o povo, a falta de sensibilização para engajamento do povo, o desconhecimento dos potenciais naturais e a clara falta de cumprimento adequado de atribuições designadas por legislação vigente.

Em pleno século XXI, ano de 2020, não pensar em amplos diálogos, isenções fiscais, projetos sociais, socioeconômicos e ambientais em área de atuação parece coisa do século passado, não? Tiro no pé? Talvez sim, caso a população acorde e comece a cobrar o que lhe é de direito: o Velho Monge saudável e vivo. Obrigado vereador Miguel do Tiririca de Parnarama pela conversa tão proveitosa sobre a problemática ambiental local. Muito obrigado pela leitura. Até mais e saúde!

Imagem 2: Nova espécie de rato-de-espinho (Makalata sp. nov.) descoberta pelo Dr. Cleuton Miranda em seu pós-doutoramento, a qual ocorre ao longo das matas ciliares do rio Parnaíba e litoral nordestino. Indivíduo capturado durante supressão de vegetação para obras do Porto de Itaqui, São Luís, em 2018.

Imagem 3: Potencial nova espécie de rato-da-taboca ou bambu (Dactylomys sp.) que chega a pesar mais que 500g. Esse roedor depende dessa vegetação e das matas ciliares para sobreviver, assim como várias outras espécies da fauna silvestre da região do Rio Parnaíba.

Minhas informações

Prof. Dr. Cleuton Lima Miranda

Biólogo pela Universidade Federal do Piauí (2005), Mestre e Doutor em Biodiversidade – Zoologia pelo Museu Emílio Goeldi (2008 e 2016) e pós-doutor na área de Biodiversidade pela Universidade Estadual do Maranhão (2018). Atualmente se debruça em resultados sobre diversidade e evolução de mamíferos da bacia do Rio Parnaíba e estudos macroecológicos envolvendo modelagem de grupos faunísticos voltados para Conservação. Consultor ad hoc FAPEMA. Professor EAD UFPI. Filiado ao REPUBLICANOS-10.

1 comentário

Rômulo Rocha
Comentou em 25/05/20

Os trabalhos de preservação ambiental ou ecológico envolvem muitos passos que deverão ser planejados e insistidos para que haja condições satisfatórias de recuperamos e/ou mantê-los para as comunidades ribeirinhas.
Seria válido buscar juntos aos povoados que há escolas rurais, travarmos pequenos projetos referenciano a educação ambiental básica , principalmente com o público infanto – juvenil. Sendo sempre com busca massal de pessoas ,com o casamento da pesquisa, o ensino e a extensão rural. Já com os adultos elaborar questionários para os pescadores dessas localidades. Exemplificar situações que envolva a preservação ambiental, ou seja, como multiplicar os peixes sem
a extinção dos mesmos e sem agredir a natureza. A mesma ideia para o trabalhador rural ribeirinho que depende dessa áreas para plantações, conhecidas como culturas de varzantes.
Realizar vários projetos pilotos e não pilotos com pesquisadores que estude N mecanismos para conservação da região do médio Parnaíba . E, que a própria comunidades se envolva como vigilantes nos setores de estudo, de recuperação ou preservação. Buscar aliados parlamentares destas áreas , através de comissões que execute projetos -Lei para formações de parque ou sítios ecológicos com o objetivo de recuperar , de resgatar e/ou preservar todo ecossistema nas N áreas de pesquisa. Daí pode entrar às pesquisas dos ratos de tabocas e de bambus. Levar para comunidade a importância desses animais para natureza.Sempre envolver e acionar a promotoria pública nos problemas de agressão ao meio ambiente bem como a fauna . Além, disso catalogar matas nativas e, com plantas medicinais sempre próxima ao velho monge.
Se possível envolver outros pesquisadores nas áreas da biologia ,da veterinária e da zoologia e afins com a finalidades de executar vários N de pesquisas em prol do meio ambiente e conservação dessas comunidade , assim evitar o êxedo rural .
Portanto , o conjuntos dessa ações supracitadas se tornarão mecanismos fortes para podermos esperar e mostrar para os filhos vindouros dessas região que o rio Parnaiba existe e possuem suas qualidades. Além, de ser sustentável para o homem do campo . Deve-se também divulgar esses trabalhos de forma mais ampla, através de reuniões comunitárias , seminários e congresso e, sistema de rádio e TV. O velho Monge com certeza vai agradecer.

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