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Em livro, jornalista diz que tubarões mudaram rotas para se alimentar de corpos jogados de navios negreiros

Laurentino Gomes no Castelo de São Jorge da Mina, ou Elmina, no litoral de Gana, construído pelos portugueses no século 15. Autor foi a 12 países para levantar a história da escravidão brasileira

Em Escravidão, o jornalista Laurentino Gomes volta a pesquisar a formação do Brasil, desta vez a partir do comércio de gente trazida do continente africano. Foram quase 5 milhões desembarcados, segundo o autor. O livro será lançado nesta terça à noite, em Fortaleza

Laurentino Gomes narrou a história da formação do Brasil em três datas-livros: 18081822 e 1889. Contou quem eram os personagens da corte lusitana que abandonaram Portugal e aportaram nesta colônia, na conveniente rota de fuga da caçada de Napoleão Bonaparte. Depois, como dom Pedro I criou um Brasil independente da coroa portuguesa, porém cheio de arranjos políticos, que fizeram o País dar certo em episódios de sorte e improviso. No desfecho da bem sucedida trilogia, o jornalista e pesquisador paranaense apresentou o nascimento da república brasileira, protagonizada por um militar já idoso, adoentado, defensor da monarquia e conviva do imperador dom Pedro II, antes de sua deposição.

Agora, em sua nova grande reportagem no formato livro, Laurentino apresenta um outro capítulo histórico, muito mais trágico, ainda mais definidor da cultura e do que se descreve como raiz do povo brasileiro. Nesta terça-feira, 22, a partir das 19 horas, na livraria Leitura do shopping Riomar Fortaleza (Papicu), o autor fará a noite de autógrafos de Escravidão – Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares.

É o primeiro de uma série de três volumes que detalham o que foi o comércio de gente praticado nas grandes cidades e nas fazendas do Interior do Brasil. Perto de cinco milhões de negros – dos 12 milhões que deixaram a África – desembarcaram como mercadoria em solo brasileiro. Como colônia e já independente da coroa portuguesa, o Brasil foi a principal nação escravagista das Américas.

O autor monta, no Volume 1, a gênese do escravagismo no País, desde os leilões europeus, as partidas de navios negreiros do continente africano até o desembarque e a negociação. O primeiro leilão realizado em Portugal foi em 8 de agosto de 1444, meio século antes de o Brasil “existir”, e Zumbi morreu em 1695. “O tráfico de escravos era um negócio gigantesco, que movimentava centenas de navios e milhares de pessoas dos dois lados do Atlântico. Incluía agentes na costa da África, exportadores, armadores, transportadores, seguradores, importadores, atacadistas”, descreve Laurentino, em entrevista exclusiva ao O POVO Online.

Os cativos, como eram chamados os negros negociados, não viviam muito mais do que 30 anos de idade. Eram sujeitos a jornadas de até 20 horas de trabalho. Muitos morriam na travessia pelo Oceano. Os corpos lançados ao mar, segundo Laurentino, atraíram tantos tubarões à época que os animais chegaram a alterar sua rota migratória naqueles anos de escravidão. Seguiam as embarcações à espera da carne humana.

Os dois próximos volumes de Escravidão serão publicados em 2020 e 2021, com ênfase no auge do tráfico negreiro, no século 18, a força do movimento abolicionista e a assinatura da Lei Áurea, em 1888. Laurentino confirma que, no terceiro livro, o Ceará terá destaque com a luta pela abolição da escravatura – antecipada em 1884 – e como o jangadeiro cearense Chico da Matilde, conhecido como “Dragão do Mar”, virou herói nacional.

A seguir, os principais trechos da entrevista – respondida por email, por causa da agenda corrida de lançamentos do autor pelo País.

O POVO – O senhor informa no livro que o Brasil foi o maior território escravagista das Américas. Quantos escravos existiram no território brasileiro?

Laurentino Gomes – O Brasil recebeu quase cinco milhões de cativos africanos, cerca de 40% do total de 12 milhões embarcados nos navios negreiros com destino ao continente americano. Como resultado, temos hoje a maior população afrodescendente do mundo, com exceção apenas da Nigéria. Foi também o país que mais tempo resistiu a acabar com o tráfico negreiro e o último a abolir o cativeiro, pela Lei Áurea de 1888 – quatro anos depois de Porto Rico e dois depois de Cuba. É importante lembrar também que, antes de investir maciçamente no tráfico de cativos africanos, os portugueses tentaram de todas as maneiras suprir as necessidades de mão de obra da colônia com escravos indígenas. Essa é uma história trágica, de extermínio sem precedentes na história da humanidade. Estima-se que na época da chegada de Cabral haveria entre três e quatro milhões de indígenas brasileiros, distribuídos em centenas de tribos. Falavam mais de mil línguas e representavam uma das maiores diversidades culturais e linguísticas do mundo. Três séculos depois, em 1808, ano da chegada da corte portuguesa de Dom João ao Rio de Janeiro, a população era ainda de cerca de três milhões de habitantes, número semelhante ao de 1500, mas os índios tinham sido vítimas de uma bomba demográfica. A esta altura, imensa maioria dos brasileiros – mais de três quartos do total – era constituída de brancos de ascendência europeia ou africanos e seus descendentes. Os indígenas, por sua vez, estavam reduzidos a cerca de 700 mil pessoas, aproximadamente 20% do seu contingente original. Em média, durante o período colonial, o Brasil exterminou um milhão de índios a cada cem anos.

“O assunto mais importante da nossa história não são os ciclos econômicos, as revoluções, o império ou a monarquia. É a escravidão”Laurentino Gomes, jornalista e escritor

OP – Havia um destino específico para o Brasil ou era generalizado? Quais as terras do País que mais receberam o negro traficado?

Laurentino – O principal destino do tráfico negreiro no Brasil foi o porto do Rio de Janeiro. Ali desembarcaram entre os séculos 18 e 19 cerca de 2,3 milhões de cativos, que eram leiloados nas vizinhanças do cais do Valongo e redistribuídos para Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso e Goiás e outros destinos nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e do Sul do País. A maioria vinha de Angola. De Moçambique vieram 280 mil. Quase cem mil morreram durante a viagem. O segundo maior destino foi a Bahia, que recebeu um total de 1,6 milhão de cativos, sendo que a metade veio da Costa dos Escravos, entre o Benim e a Nigéria. A outra metade, de Angola. O número de mortos nas cargas humanas despachadas para Salvador foi de quase 200 mil. Pernambuco, terceiro maior mercado escravista do Brasil, importou 854 mil cativos africanos, principalmente das regiões de Angola e Congo. O número de mortos na travessia até o porto do Recife é estimado em 350 mil. Maranhão, Pará e outras regiões do estuário do Amazonas foram o último grande destino do tráfico negreiro no Brasil. Receberam cerca de 142 mil cativos. Vinham principalmente da Guiné-Bissau. Nesta rota específica, aproximadamente 20 mil pessoas morreram na viagem. O tráfico de escravos era um negócio gigantesco, que movimentava centenas de navios e milhares de pessoas dos dois lados do Atlântico. Incluía agentes na costa da África, exportadores, armadores, transportadores, seguradores, importadores, atacadistas que revendiam no Rio para centenas de pequenos traficantes regionais, que, por sua vez, se encarregavam de redistribuir as mercadorias para as cidades, fazendas, minas do interior do país. Em 1812, metade dos 30 maiores comerciantes do Rio de Janeiro se constituía de traficantes de escravos. Uma em cada três viagens de compra e venda de escravos foram organizadas no Brasil. O Rio de Janeiro foi o maior porto negreiro da história, seguido de Salvador, Bahia, e Liverpool, na Inglaterra.

OP – Quem eram as pessoas trazidas para cá, qual o perfil?

Laurentino – Dois grandes sistemas de correntes e ventos orientavam o comércio de escravos Oceano Atlântico. O primeiro, em sentido anti-horário ao sul do equador, era dominado pelos brasileiros e portugueses e favorecia as viagens dos navios entre o litoral brasileiro e as regiões de Angola, Congo, Nigéria e Benim. O segundo, em sentido horário ao norte do equador, facilitava as viagens que dos negreiros que saíam da Europa, compravam escravos entre Gana e Senegal e os vendiam no Caribe e na América do Norte. Era dominado por traficantes britânicos, holandeses e franceses. Oitenta e quatro por cento dos 12,5 milhões de escravos embarcados para as Américas em três séculos partiram da faixa litorânea da África situada entre os atuais países de Gana (antiga Costa de Mina, ou do Ouro) e Angola, passando pela República do Benin, a Nigéria e o Congo. Mas havia centenas de locais de fornecimento de escravos na costa africana. Luanda, em Angola, de onde saíram 2,8 milhões cativos, foi o maior de todos eles. Em muitos desses locais existiam castelos e fortificações, caso de São Jorge da Mina (ou Elmina), em Gana, onde os escravos comprados pelos europeus de reis e chefes africanos ficavam estocados à espera dos navios negreiros.

OP – Os escravos viviam quanto tempo?

Laurentino – A expectativa de vida dos escravos no Brasil era reduzida, em torno de 30 anos, no máximo. O trabalho nas lavouras e engenhos de açúcar era exaustivo e, por vezes, desumano. Os cativos submetiam-se a jornadas longas, pesadas e perigosas. Nos campos, o trabalho começava antes ainda do nascer do sol e ia até o anoitecer. Picadas de cobras ou ferimentos produzidos por facões, machados e outros instrumentos cortantes eram comuns. Muitos causavam mutilações para o resto da vida ou mesmo a morte das vítimas. Nos engenhos, o turno de trabalho na época da safra e do auge da produção anual de açúcar podia chegar a 18 ou 20 horas. As caldeiras ferviam dia e noite sobre fornalhas que os cativos iam alimentando de lenha, expostos a temperaturas altíssimas. Escravos envolvidos na produção de açúcar tinham dificuldade em se reproduzir. Os senhores de engenho preferiam homens para o trabalho pesado. Como resultado, o número de escravos masculinos era, em média, o dobro do número de mulheres. Nesse ambiente, era difícil encontrar parceiros sexuais e constituir famílias. Dessa forma, os senhores de engenho achavam mais lucrativo repor constantemente o número de escravos pela compra de novos cativos recém-chegados da África do que estimular a reprodução do plantel já existe em suas fazendas.

“Os navios negreiros fizeram com que os tubarões peixes mudassem suas rotas migratórias, passando a acompanhar as embarcações na travessia do oceano, à espera dos corpos que seriam lançados sobre as ondas”Laurentino Gomes

OP – O que mais te surpreendeu nesta pesquisa sobre a história da escravidão no Brasil?

Laurentino – Um detalhe que me chamou muito a atenção, e também me deixou assustado, diz respeito aos altos índices de mortalidade do tráfico de escravos e ao comportamento dos tubarões que seguiam as rotas dos navios negreiros. Durante mais de três séculos e meio, o Atlântico foi um grande cemitério líquidoPelo menos 1,8 milhão de cativos morreram durante a travessia e foram sepultados no mar. Isso significa que, sistematicamente, ao longo de todo esse período, em média, 14 escravos foram lançados da amurada de um navio todos os dias. Por essa razão, os navios que faziam a rota África-Brasil eram chamados de “tumbeiros”, ou seja, tumbas flutuantes. Os cadáveres eram então atirados por sobre as ondas, sem qualquer cerimônia, às vezes sem ao menos a proteção de um pano ou lençol, para serem imediatamente devorados pelos tubarões e outros predadores marinhos. Segundo inúmeras testemunhas da época, mortes tão frequentes e em cifras tão grandes fizeram com que esses grandes peixes mudassem suas rotas migratórias, passando a acompanhar os navios negreiros na travessia do oceano, à espera dos corpos que seriam lançados sobre as ondas. Esses rituais eram parte da rotina a bordo.

OP – Você chegou a dimensionar o comércio de escravos no Nordeste, especificamente?

Laurentino – Na região Nordeste escravidão foi, quase sempre, sinônimo da produção de açúcar. No início da colonização portuguesa, o Nordeste brasileiro oferecia três dos quatro fatores essenciais à produção de açúcar: terras em abundância, solos férteis, clima quente e ensolarado. Faltava o quarto item: mão de obra escrava. Durante o século XVI, os senhores de engenho tentaram resolver o problema pela captura de milhares e milhares de indígenas. Não foi o suficiente porque, entre outras razões, os índios começaram a morrer aos milhares, devido às doenças que chegavam junto com os europeus. A solução definitiva começaria a ser adotada em 1559, quando Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil, ordenou a redução em 40% das tarifas alfandegárias para a entrada de cativos africanos no Brasil, com o objetivo de estimular a produção de açúcar. Ninguém sabe ao certo quando chegou a primeira carga de escravos africanos ao Nordeste. Os documentos são imprecisos, mas há indicações de que seria ainda na primeira metade do século 16, ou seja, logo após a chegada de Cabral a Porto Seguro. Uma caravela encontrada por Martim Afonso de Sousa na Bahia, em 1531, estaria empregada no tráfico negreiro. Os donos dos maiores engenhos exploravam o trabalho de 100 a 150 escravos. Os estabelecimentos menores, chamados de engenhocas, precisavam de, no mínimo, 40. Já os lavradores, que apenas cultivavam a cana e a forneciam para os engenhos, empregavam em média 30 cativos. Inventários de engenhos no Recôncavo Baiano entre 1716 e 1816, pesquisados por Stuart B. Schwartz, demonstraram que os escravos representavam quase a metade do patrimônio total, superior ao valor da terra, das plantações, gado, construções e equipamentos. No século 17, o retorno sobre o investimento entre 10% e 15% nos grandes engenhos baianos.

OP – A cidade cearense de Redenção anunciou a libertação dos escravos em 25 de março de 1884. O Ceará aparece com alguma peculiaridade em seu trabalho?

Laurentino – Sim, o Ceará deve merecer um destaque especial no terceiro volume da minha trilogia, a ser lançado em 2021 e que terá como tema principal o movimento abolicionista e os esforços para acabar com a escravidão no Brasil. Em 1884, Ceará e Amazonas se tornaram as primeiras províncias a abolir a escravidão no Brasil – quatro anos antes da Lei Áurea. Um motivo é que, nessas regiões, o trabalho cativo deixara de ser importante para a economia. No censo de 1872, os escravos representavam apenas 4,5% do total da população cearense. No Amazonas, a proporção era ainda menor, de 1,7%. Acabar com a escravidão nessas províncias teria, portanto, pouco impacto na economia local, ao contrário do que acontecia no sul do Brasil, especialmente no Vale do Paraíba, cujas fazendas de café dependiam totalmente dos cativos. Ainda assim, as decisões tomadas por cearenses e amazonenses tiveram grande repercussão nacional pelo seu óbvio significado político. Era uma vitória do movimento abolicionista e foi usada como ferramenta de propaganda até mesmo na Europa. Um episódio ocorrido em 1881 no Porto de Fortaleza contribuiu para atrair as atenções para a luta contra a escravidão no Ceará. Foi o boicote ao embarque de cativos liderado pelo jangadeiro Francisco José do Nascimento, na época conhecido como “Chico da Matilde” e mais tarde rebatizado como “Dragão do Mar”. Durante três dias, Nascimento e os colegas se recusaram a transportar para os navios um grupo de escravos vendidos para fazendeiros do sul do país. Em represália, o jangadeiro foi demitido do cargo de prático da barra que ocupava na Capitania dos Portos do Ceará. A punição, no entanto, o promoveu de imediato à condição de herói do movimento abolicionista brasileiro.

OP – Num trabalho do pesquisador cearense Américo Souza, o jornal abolicionista O Libertador fez denúncia de manipulação das liberdades concedidas. O Estado pagava para o proprietário libertar o escravo, mas os negros eram “libertados” várias vezes, apenas para que o dono recebesse vários pagamentos. Era prática comum? Havia outros casos de distorção da liberdade?

Laurentino – Também vou tratar desse tema com mais detalhes no terceiro livro. A conquista da liberdade foi um processo lento, sofrido e repleto de sustos para os brasileiros escravizados. A Lei do Ventre Livre, de 1871, estabelecia que todo filho de escrava nascido no Brasil a partir daquela data teria liberdade mediante as seguintes condições: o proprietário dos escravos poderia manter a criança junto aos pais na senzala até os oito anos de idade, quanto então teria a opção de entregar o menor ao governo, em troca de indenização de 600 mil réis, ou continuar com ele até os 21 anos. A maioria dos proprietários preferiu manter os filhos das escravas no cativeiro após os oito anos de idade em vez de entregá-los ao governo mediante a indenização prometida. Ou seja, os fazendeiros continuaram a utilizá-los como mão de obra cativa, como se nada tivesse mudado. Em 1882, 11 anos depois da aprovação da lei, relatório do Ministério da Agricultura informava que apenas 58 crianças em todo o Brasil haviam sido entregues aos tutores oficiais. Todas as demais permaneceram nas fazendas, vivendo na companhia dos pais nas senzalas e trabalhando nas lavouras debaixo da vigilância dos feitores. A lei previa também que, para viabilizar a fiscalização, os fazendeiros tinham de registrar o nascimento das crianças. Poucos fizeram isso. Com a conivência dos párocos locais, a quem cabia fazer os registros, eles fraudavam as certidões de batismo, como se as crianças tivessem nascido antes da Lei do Ventre Livre. A liberdade nem sempre foi um direito assegurado para os ex-escravos e seus descendentes. Um caso famoso é o do abolicionista negro Luís Gama. Baiano de Itaparica, filho de uma negra livre com um fidalgo português, Luiz Gama tornou-se abolicionista depois de viver na pele as injustiças da escravidão. Era ainda uma criança de dez anos quando seu pai, às voltas com dificuldades financeiras, não teve pudores de vendê-lo como escravo para um comerciante do Rio de Janeiro. Levado mais tarde para Campinas, interior de São Paulo, fugiu do cativeiro, estudou Letras como um autodidata e tornou-se um rábula – praticante da advocacia sem diploma universitário. Era um homem ousado e corajoso. Sozinho, conseguiu libertar mais de mil escravos. Foi, portanto, um exemplo de superação diante das ameaças à liberdade em um país que, na prática, não estava disposto a reconhecer esse direito aos afrodescendentes.

OP – Você refez quais caminhos do negócio de gente escrava? Viajou por onde?

Laurentino – Ao todo, foram seis anos de pesquisas, nos quais li quase 200 livros sobre o tema e viajei por 12 países em três continentes. Estive em Cartagena, na Colômbia, que foi o principal porto negreiro do antigo império colonial espanhol. Depois percorri o sul dos Estados Unidos, cenário da Guerra da Secessão, em que mais de 750 mil pessoas morreram para que a escravidão fosse abolida pelo presidente Lincoln. Em seguida, morei em Portugal durante seis meses. A partir dali fiz cinco viagens a oito diferentes países africanos: Cabo Verde, Senegal, Marrocos, Angola, Gana, Benim, Moçambique e África do Sul. Também estive em Londres e Liverpool, na Inglaterra, que foram grandes centros de construção e financiamento de navios negreiros até o final do século 18. Além disso, percorri o Brasil, visitando, entre outros lugares, quilombos no Estado da Paraíba, usinas e engenhos de cana-de-açúcar em Pernambuco e na Bahia, a Serra da Barriga, em Alagoas, onde morreu Zumbi dos Palmares, o Vale do Paraíba, em São Paulo, as antigas minas de ouro e diamantes em Minas Gerais e o Cais do Valongo, que foi o maior porto negreiro das Américas no século 19. Em resumo, fiz uma gigantesca reportagem jornalística, que agora estou transformando em três livros a serem publicados a partir deste ano.

OP – Por que você quis pesquisar a escravidão?

Laurentino – Essa foi uma decorrência natural da minha primeira trilogia de livros. Estudar 1808, 1822 e 1889, ou seja, as três datas fundamentais para a construção do Brasil como nação independente no século 19, ajuda a explicar a maneira como nos constituímos do ponto de vista legal, institucional e burocrático. Mas não é o suficiente para entender os aspectos mais profundos da nossa identidade nacional. Para isso é preciso ir além da superfície, observar o que fizemos com os nossos índios e negros, quem teve acesso às oportunidades e privilégios ao longo da nossa história e como a sociedade e a cultura brasileiras foram se moldando desde a chegada de Pedro Álvares Cabral na Bahia até os dias de hoje. Ao fazer isso, me dei conta de que o assunto mais importante da nossa história não são os ciclos econômicos, as revoluções, o império ou a monarquia. É a escravidão. O trabalho cativo deu o alicerce para a colonização portuguesa na América e a ocupação do imenso território. Também moldou a maneira como nos relacionamos uns com os outros ainda hoje. Neste início de século 21, temos uma sociedade rica do ponto de vista cultural, diversificada e multifacetada, mas também marcada por grande desigualdade social e manifestação quase diárias de preconceito racial. Isso, no meu entender, é ainda herança da escravidão.

OP – Pode-se afirmar que os traços da escravidão permanecem nos costumes atuais? O Brasil de hoje é escravocrata em que situações, em que nível?

Laurentino – A escravidão é parte do código genético brasileiro. Existiu desde o início da ocupação portuguesa até quase final do século 19. Envolveu tantos indígenas brasileiros quanto africanos escravizados. Antes de investir maciçamente no tráfico de cativos africanos, os portugueses tentaram de todas as maneiras suprir as necessidades de mão de obra da colônia com escravos indígenas. Estima-se que na época da chegada de Cabral haveria entre três e quatro milhões de indígenas brasileiros, distribuídos em centenas de tribos. Falavam mais de mil línguas e representavam uma das maiores diversidades culturais e linguísticas do mundo. A escravidão acabou, legalmente e formalmente, com a Lei Áurea de 13 de maio de 1888. Mas, infelizmente, continua a existir, no Brasil e no mundo todo sob outras formas, mais sutis e disfarçadas de exploração do trabalho, sob formas desumanas, indignas e inaceitáveis para os padrões éticos que julgávamos ter atingido neste início de século 21. Uma organização britânica, a Anti-Slavery International (mais antiga entidade de defesa dos direitos humanos, fundada em 1823 para combater o tráfico negreiro), afirma que existem hoje mais escravos no mundo do que em qualquer período nos 350 anos de escravidão africana nas Américas. Seriam 20 milhões de pessoas vivendo hoje em condições de vida e trabalho análogas às da escravidão – ou seja, quase o dobro do total de cativos traficados no Atlântico até meados do século 19. Ainda segundo a Anti-Slavery Internacional, a cada ano cerca de 800 mil pessoas são traficadas internacionalmente ou mantidas sob alguma forma de cativeiro, impossibilitadas de retornar livremente e por seus próprios meios aos locais de origem. E, lamentavelmente, o nosso Brasil aparece sempre com destaque nesta lista suja.

OP – Houve um negociador principal de escravos no território brasileiro?

Laurentino – Fernando de Noronha foi o inaugurador do tráfico de escravos no Brasil. Em 1511, ou seja, apenas uma década após a chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral à Bahia, a nau Bretoa, de propriedade do florentino Bartolomeu Marchionni e de Fernando de Noronha, atracou em Portugal com uma carga de papagaios, peles de onça pintada, toras de pau-brasil e 35 índios cativos. Noronha era um cristão-novo, ou seja, judeu recém convertido ao cristianismo. Coube a ele, portanto, inaugurar o tráfico de escravos no Brasil. Hoje dá nome ao famoso arquipélago transformado em reserva ambiental, situado na costa nordestina, mas, além dele, diversos outros traficantes de escravos foram homenageados em todo o país. Outro caso famoso é o do bandeirante Raposo Tavares, que dá nome a uma importante rodovia no interior de São Paulo. Era um grande caçador e escravizador de indígenas. Numa só expedição, capturou 50 mil índios guaranis, vendidos em São Paulo, cuja primeira atividade foi ser uma “feira de trato”, ou seja, um mercado de escravos indígenas.

OP – A resistência de Zumbi dos Palmares, em vida, criou que tipo de dificuldades reais para os donos de escravos de outras partes do País? Sua morte foi em 1695 e a escravidão ainda prosseguiu por quase 200 anos. Como a história conseguiu repercutir naquela época?

Laurentino – Em Palmares, mito e realidade se misturam e se confundem, ao ponto de afetar a própria maneira como os brasileiros se identificam hoje, especialmente no que se refere à história da escravidão. As controvérsias são inúmeras. Textos na internet, por exemplo, afirmam que o quilombo teria quase o tamanho de Portugal. Livros e textos acadêmicos estimam sua população entre 6 mil e 30 mil habitantes. Debate ainda maior diz respeito à sua organização. Alguns autores sustentaram a tese de que Palmares teria sido uma tentativa de reconstruir no interior de Alagoas o reino africano dos jagas ou ingambalas do interior de Angola. Outros, influenciados pelas ideias marxistas, chegaram a defender a ideia de que ali haveria uma república socialista e popular, vanguardista na defesa da liberdade e dos direitos não apenas dos escravos, mas também de toda a população trabalhadora, oprimida e marginalizada do Brasil. Dela teria nascido o primeiro impulso abolicionista no Brasil colonial. Infelizmente, tudo isso é fruto de mera idealização romântica de uma história pouco conhecida e documentada. No seu auge, Palmares teria ocupado uma área de cerca de 27 mil quilômetros quadrados, portanto não mais do que um quarto do território de Portugal. Nunca chegou, de fato, a se consolidar com um reino ou um estado autônomo, com capacidade para tomar decisões e conduzir seus próprios destinos. Era, ao contrário, uma frágil aglomeração de mocambos dispersos nas matas de Alagoas, às voltas com desesperada tentativa de sobrevivência, sob permanente ataque das forças coloniais. Os quilombolas tinham dificuldades em se reproduzir, pela escassez de mulheres entre os escravos fugitivos. A perspectiva de constituição de famílias estáveis era remota, o que os levava a obter parceiras sexuais mediante o sequestro de escravas negras e índias nas fazendas vizinhas. O quilombo jamais foi uma república, e menos ainda socialista. Funcionava, provavelmente, como uma monarquia eletiva nos moldes existentes na África. Por fim, Palmares nunca foi abolicionista. Ao contrário, os chefes quilombolas, incluindo o mítico Zumbi, tinham seus próprios escravos, capturados nos engenhos vizinhos. Quem teria sido Zumbi? Por mais óbvia que pareça, a pergunta carece de respostas consistentes. Existem poucas informações concretas e objetivas sobre o suposto homem que liderou bravamente o maior e o mais famoso quilombo das Américas. Sua história permanece repleta de sombras, o que impediria que se tivesse uma visão mais nítida sobre ele. Na ausência de depoimentos pessoais ou documentos escritos por ele ou seus comandados, sobraria apenas o mito, lenta e laboriosamente construído ao longo dos séculos por historiadores, religiosos, militares, naturalistas, pedagogos, antropólogos, cineastas, arqueólogos, romancistas e, mais recentemente, militantes políticos.

OP – Você desfaz alguns personagens que eram glorificados na história. Um deles, o infante Dom Henrique, a quem você chama de “grande traficante negreiro”.

Laurentino – O Infante Dom Henrique é hoje uma figura nebulosa na história de Brasil e Portugal. Durante muito tempo atribuiu-se a ele o papel de artífice, incentivador e financiador das grandes navegações que transformaram radicalmente o conhecimento que até então se tinha do mundo. Seria um amante da literatura e das ciências, capaz de reunir ao redor de si um notável grupo de estudiosos responsáveis pelas inovações do período que imprimiram uma marca duradoura e profunda na história de Portugal. Por isso, passou a história oficial como “Henrique, o Navegador”. Hoje, porém, acredita-se que ele próprio jamais tenha sido um audaz navegante. Ao contrário, o mais provável que nunca tenha se aventurado em qualquer expedição oceânica de longo curso. Toda sua experiência marítima se resumiria a duas curtas travessias do Mediterrâneo, entre a costa portuguesa e o litoral da África. Se restam dúvidas a respeito de sua condição de navegador e amante das ciências, há certezas absolutas sobre outro aspecto, menos conhecido e propagandeado, de sua biografia: Dom Henrique foi um grande traficante de escravos, o pioneiro e o patrono do negócio de cativos africanos.

OP – Numa passagem de sua pesquisa, você cita o relato de Gomes Eanes Azurara, escritor, biógrafo do infante dom Henrique. “Uns tinham as caras baixas, rostos lavados de lágrima. Outros gemendo dolorosamente, olhando para os céus… outros apenas cobriam os rostos com as mãos”. Foi durante um leilão de gente, em 8 de agosto de 1444. Aquela foi a primeira de quantas levas de negros para o Brasil?

Laurentino – Essa é uma história muito interessante, que descrevo logo nos capítulos iniciais do livro. Ao amanhecer de oito de agosto de 1444, os moradores de Lagos, então pequeno vilarejo murado na região de Algarve, sul de Portugal, foram despertados pela notícia de um acontecimento extraordinário. Recém-chegadas do mar, meia dúzia de caravelas estavam ancoradas no cais ao pé da ladeira de casinhas brancas, sob a proteção dos canhões da antiga fortaleza que guarnecia a entrada da barra. Dos seus porões começou a sair uma carga inusitada: 235 escravos, homens, mulheres e crianças, que ali seriam arrematados em leilão. A cena foi descrita por Azurara, cronista e biógrafo de Dom Henrique. Começava ali uma prática que se repetiria milhares de vezes nos quatro séculos seguintes na África, na Europa e na América, até o fim do tráfico negreiro no Brasil, em 1850, pela Lei Eusébio de Queiroz. A partir do leilão de 1444 em Lagos, o comércio de escravos ajudaria a financiar as chamadas viagens dos descobrimentos e todo o grande projeto de expansão portuguesa ao redor do mundo. O sangue, o suor e o sacrifício dos cativos permitiriam que os portugueses no século seguinte, abrissem um novo caminho para as Índias, contornando por mar o continente africano, explorassem as costas da China e do Japão, estabelecessem entrepostos de comércio de especiarias na atual Indonésia e no Ceilão e, finalmente, chegassem ao Brasil

OP – Os volumes II e III saem quando?

Laurentino – São três livros a serem publicados entre 2019 e 2021, um por ano, e compreendem uma série de ensaios e reportagens de campo e, sempre que possível, procuram seguir uma ordem cronológica. O primeiro volume tem seu foco principal na África — pela óbvia razão de que, ao escrever sobre a escravidão no Brasil, é preciso começar pela África. Cobre um período de, aproximadamente, 250 anos, entre o início das incursões e capturas de escravos pelos portugueses na costa da África, em meados do século 15, até o final do século 17. Traz também alguns capítulos sobre a escravidão em outros períodos da história da humanidade, como na Grécia Antiga, no Egito dos faraós, no Império Romano e nos domínios do islã e na própria África antes da chegada dos portugueses. O segundo livro concentra-se no século 18, auge do tráfico negreiro no Atlântico, motivado pela descoberta das minas de ouro e diamantes no Brasil e pela disseminação do cultivo de cana de açúcar, arroz, tabaco, algodão e lavouras e do uso intensivo de mão de obra cativa em outras regiões do continente. Num período de apenas 100 anos, mais de 6 milhões de seres humanos foram traficados da África para as Américas, dos quais 2 milhões (um terço do total) só para o Brasil. O terceiro e último livro se dedica ao movimento abolicionista, ao tráfico ilegal de cativos, ao fim (pelo menos do ponto de vista formal e legal) da escravidão no século XIX e ao seu legado nos dias atuais. São também abordados, nos dois volumes finais da trilogia, temas como a família escrava, as alforrias, a escravidão urbana, as festas, irmandades e práticas religiosas, a assimilação, as fugas, rebeliões e os movimentos de resistência.

 

Do jornal O Povo, de Fortaleza

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