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Na crônica do Túnel do Tempo, Gil Barbosa destaca uma mulher que tem como única companhia a sombra de uma árvore frondosa no centro de Teresina

TÚNEL DO TEMPO:- UMA SOMBRA QUE SOFRE

POR GIL ALVES DOS SANTOS

1 – Quando a decrepitude ainda não estava em mim, o colega de Banco, ZÉ GIL, hoje também aposentado, que imaginava, erradamente, em me ver letrado como ele, tirando-me da ignorância literária – e nada mudei, pois, a minha mente já estava uma esponja – deu-me de presente a maravilhosa coleção de 10 livros do gênio da pena – HUMBERTO DE CAMPOS, maranhense de Miritiba, outrora pertencente ao município de Iacatu. Miritiba, hoje, leva o nome do famoso escritor, nascido em 25 de outubro de 1886 – e já se vão exatos 130 anos. Lá eu estive à procura de um parente do conterrâneo, do local de seu nascimento – mas nada encontrei. Na verdade, uma grande frustração.

2 – Na famosa e excelente coleção “humbertiana” há um volume com crônicas sobre cartas dramáticas, nascidas, digamos, de um espaço confessional, pelo conteúdo das respostas dadas aos consulentes. Hoje tais crônicas estariam – ou estão – fora do tempo, ultrapassadas, piegas, sem o menor interesse, a não ser à velharia à qual pertenço. Refiro-me ao volume “SOMBRAS QUE SOFREM”, da Opus Editora, edição de 1982.

3 – A motivação deste TÚNEL e graças à tolerância do amigo ELIAS LACERDA, na comparação com os escritos de Humberto de Campos, se posso fazê-lo, está no fato de que nas imediações da BANCA DO TOMAZ, ali, na Praça João Luiz Ferreira, em Teresina, sentada ou deitada ao chão está uma mulher disforme em sua constituição física, cercada de sacos recheados de jornais velhos e lixo e uma peça a compor a cena típica de uma sombra que sofre:- ela conserva o exemplar de uma Bíblia que lê em voz sem exaltação alguma. Mas ninguém lhe dar ouvidos. Apenas a sombra da árvore frondosa que lhe acolhe, rodeada por alguns pombos,são seus acompanhantes na solidão aparente em que vive. Desconheço o seu estado civil. Na conversa travada com um evangélico que dela se aproximou notei que o seu nome, por óbvio, é MARIA, com 43 anos de idade. Disse ainda que “…não tem nem parente nem aderente. Que dorme ali mesmo. Que não tem onde comer.” A essa condição humana Humberto de Campos denomina-a de “OS DRAMAS QUE SE DESENROLAM NA SOMBRA. Ela é, bem é que se diga, uma sombra na sombra.

4 – Após a leitura que faz em voz moderada, talvez para si mesma, ela pega as páginas avulsas de um caderno e de jornais velhos e com o lápis vai escrevendo – não sei se sobre o texto lido na sua Bíblia ou o que vê em seu derredor. Cabisbaixa ou deitada ao relento não vê ou não olha para os que estão à sua volta. Neste ponto e a propósito das anotações da Sombra que Sofre, recordemos o que sobre o pai escreveu o filho – também Humberto, volume 1 da coleção:- “[…] À noite, deitado na rede, lia tudo que lhe caia nas mãos, à luz da bruxuleante lamparina de querosene(…). Foi nessa época que ele começou a copiar, SOBRE PAPEL DE EMBRULHO, um dicionário da língua portuguesa. O dinheiro era pouco para comprar um.”

5 – Observe, meu único leitor, a precariedade do material de que ambos se valem para expressão de seus sentimentos:- papel de embrulho, restos de jornais, páginas de revistas, mostrando a inópia franciscana de um e de outro. De Humberto de Campos conhecemos o tesouro literário deixado. De Maria, quem sabe Maria XX, nada, absolutamente. Não será ela uma Carolina Maria de Jesus (Quarto de Despejo), rediviva, pois, “quando encontrava revistas e cadernos antigos, guardava-os para escrever em suas folhas”(Wikipédia)?

6 – Maria XX(xis-xis), ainda no mesmo local da Praça João Luiz Ferreira, hoje estava deitada. Novamente o

evangélico estava lá insistindo na sua conversão, o que significa dizer que convertida ela ainda não é. Perguntei-lhe se não queria uma “quentinha” como almoço, respondeu-me, em voz muito baixa, que não, voltando o rosto para o sedutor que a quer na companhia de Cristo como se o viver ou o passar bem dela, uma alma que vagueia desamparada por este mundo, uma sobra que sofre, dependesse de banco ou do púlpito de uma igreja evangélica. Ou católica!

7 – Onde estão os programas e entidades sociais, os clubes disto e daquilo, as associações filantrópicas, que não aparecem para uma ajuda material, afetiva, em nome da dignidade da pessoa humana decantada e de forma utópica elevada a patamares constitucionais? Maria XX não é velha nem tão jovem. Precisa, sim, da assistência de uma secretaria social – do Estado ou do Município. Com urgência.

8 – E como peroração deste TÚNEL, cito, ao acaso, o trecho de uma das crônicas de HUMBERTO DE CAMPOS – BÁLSAMO PARA UM CORAÇÃO – do volume 6, página 42, verbis:- “[…] E aqui estou, minha senhora, com a opinião e o conselho que me pede. Eu acho que, quando a mulher, escolhe, ela própria, a sua cruz, está no dever de leva-la ao Calvário, sem a faculdade, a não ser em casos excepcionais, de atirá-la ao chão, unicamente porque apodreceu no caminho. NÃO É ESSA, PORÉM, A SUA SITUAÇÃO. A senhora foi vítima de uma violência, da tirania e da prepotência de seu pai. Ele vendeu a filha, pode-se dizer, ao seu próprio irmão. E a lei, a humana como a divina, não lhe concedia esse direito[…].”

9 – Gil Alves dos Santos ([email protected]), telefone 86-9(9972-0524), bacharel em Direito, bancário aposentado do Banco do Brasil.

1 comentário

Rita porto
Comentou em 04/06/17

Parabéns ! Ao Cronista e ao blogueiro por nos proporcionar um texto com tantas verdades vividas ontem e hoje. A crônica nos faz viajar no Túnel do Tempo e refletir nossa Realidade.

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