Logo Elias Lacerda
                           Clínica São Rafael

Artigo: Professor Doutor aborda o uso sustentável dos recursos naturais e os potenciais de Timon

Foto  divulgação

O uso racional ou sustentável de nossas muitas riquezas naturais é um dos principais caminhos para melhoria da qualidade de vida da sociedade timonense a curto, médio e longo prazo. Fomos “presenteados” pela natureza. O que nos falta para utilizarmos tamanha potencialidade em nosso favor e colocar Timon em seu devido lugar de destaque em nível estadual, regional e até nacional?

Essa afirmação categórica, seguida de uma pergunta, ou melhor, uma “provocação”, parte humildemente de um timonense de 38 anos de idade que saiu de sua cidade natal ainda criança, com cinco anos de idade, juntamente com seu núcleo familiar, em busca da ilusão de melhores condições de vida no sudeste do Brasil, em São Paulo. Até os meus cinco anos vivia pelos interiores de Timon, na zona rural, tomando banho de riacho, pescando piabas e comendo ingás, dentre outras frutas apetitosas, principalmente na região conhecida como Banco de Areia, Bacuri e Maracujá, onde até hoje parentes residem.

Sempre estudei em escola pública. Fiz faculdade em universidade pública (Universidade Federal do Piauí de 2002 a 2005). Fui bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Piauí. Fui bolsista CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa do ministério de Ciência e Tecnologia) no mestrado e fui bolsista CAPES (ministério da educação) no doutorado e pós-doutorado, ou seja, a sociedade financiou meus estudos e, portanto, minha humilde “bagagem” adquirida deve servir à sociedade na forma da docência, da pesquisa, de projetos, de militância, de luta por bandeiras relevantes ao nosso povo.

Acima o Prof. Dr. Cleuton Lima Miranda (barbudo) em reunião com a polícia ambiental do Maranhão discutindo estratégias de combate a depredação ambiental.

Permita-me contar um pouco do que andei fazendo no campo profissional para me apresentar e então você entender o porquê da pergunta inicial e desse texto. Participei de várias expedições científicas no Piauí (Serra da Capivara, Sete Cidades) e na Amazônia brasileira (Amapá, Amazonas, Mato Grosso e Pará), contribuindo para a elaboração dos documentos que criaram cinco grandes Unidades de Conservação no norte do Pará, como a Floresta Estadual de Faro e a Reserva Biológica Maicuru, situadas numa região sob forte pressão por conta dos minérios e com vários grupos indígenas.

Contribui também com o projeto de Zoneamento Ecológico e Econômico do Estado do Maranhão (ZEE) referente à Amazônia maranhense, participando também de outros projetos de pesquisadores da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) em São Luís. Participei do programa Ensinar de licenciatura nos pólos da UEMA de cidades do interior do Maranhão, contribuindo para a formação de futuros professores. Orientei e oriento alunos em seus trabalhos de conclusão de curso e em projetos de extensão e popularização da Ciência, acreditando que educação e ciência são nossas principais ferramentas para uma cidade, um estado e uma nação melhor, mais justa e igualitária.

Sou também professor formador dos cursos de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Piauí e da Universidade Federal do Piauí e colaboro com o comitê da bacia hidrográfica do Rio Parnaíba como pesquisador da área de Biodiversidade. O “velho

monge” clama por ações de combate à sua destruição e as populações que ocorrem ao longo de seu trajeto por melhores condições de vida, por projetos socioeconômicos.

Diante do que foi exposto e do contexto social e político atual do Brasil, acredito que chegou o momento de tentar contribuir com minha cidade de origem e, para isso, meus esforços estão bastante focados na realização de projetos socioeconômicos e ambientais em Timon, dialogando com os diferentes atores da sociedade timonense. Esse município situa-se em uma região denominada de “Região dos Cocais” justamente pela alta disponibilidade de babaçuais, buritizais e carnaubais (esta última palmeira em menor quantidade). Estas palmeiras são consideradas de alto valor comercial e vários produtos originados a partir delas podem ser comercializados, inclusive para a indústria de cosméticos, de alimentos, farmacêutica, química, de jardinagem, dentre outras. Você sabia que o babaçu tem se mostrado uma matriz energética mais interessante que a mamona? E que há possibilidades futuras promissoras nesse sentido? Fiquemos de olho.

Foram catalogados mais de 60 produtos do babaçu e há várias possibilidades para os buritis (óleo, doce, artesanato) e carnaúbas (pó da cera). Acrescenta-se experiências bem sucedidas de trabalhos em cooperativas ou associações com babaçu no Maranhão, podendo citar a cooperativa de Lago do Junco, uma pequena cidade maranhense que em 2018 recebeu uma refinaria de óleo de babaçu por parte do governo do estado do Maranhão e parceiros da iniciativa privada no valor de 1 milhão de reais com previsão de geração de muitos postos de emprego. Itapecuru-mirim é outra cidade maranhense que tem experimentado êxito em relação ao babaçu.

O movimento das Quebradeiras de coco babaçu e outros movimentos sociais tem desempenhado papel crucial no melhoramento da cadeia produtiva do babaçu. Há relatos na literatura científica de quebradeira de coco que possuía renda de R$ 300,00 reais e a médio prazo, através de cooperativa, passou a quase R$ 3.000,00 reais, um aumento de

quase 100%, implicando em melhor qualidade de vida para essa trabalhadora e sua família certamente.

O pó da cera da carnaúba tem sido fonte de renda importante para vários municípios piauienses, sendo utilizado em várias áreas da indústria. O óleo do buriti também tem sido comercializado em alguns municípios do Piauí, principalmente para o Instituto Inovação da Natura, a qual possui uma linha de produtos denominada Ekos, que inclui o buriti, a andiroba e o breu branco, dentre outros produtos naturais. Em relação ao breu branco, é importante destacar que é uma resina conhecida apenas pelos moradores mais antigos da zona rural de Timon pelo nome de amescla, uma planta amazônica que chega até a nossa região, assim como o bacuri. A resina da amescla pode ser comercializada para indústria de incensos, óleos e perfumaria. No entanto, infelizmente, por ser uma planta que ocorre na beira dos riachos de nosso município, sua quantidade tem diminuído drasticamente por conta do desmatamento ilegal das matas ciliares (matas que margeiam os riachos), segundo relatos de moradores da zona rural.

A apicultura, de grande destaque no Piauí, estado vizinho, é outro grande potencial para Timon. Outros produtos naturais como jatobá, pequi, umbu, cajuí, caju, bacuri e várias cascas de árvores e plantas fitoterápicas (com propriedades medicinais) podem gerar rendas alternativas às famílias da zona rural e urbana de Timon.

Outro ponto relevante é que o município de Timon se encontra em posição estratégica, ao lado da capital piauiense, e possui muitos balneários, alguns com forte potencial para o ecoturismo. Um belo projeto desenvolvido pelo ex-secretário de Indústria e Comércio de Timon, senhor Victor Hugo, mapeou todos os balneários e constitui uma base muito sólida para a implementação de um “circuito verde” em Timon, com balneários voltados para turismo tradicional e outros para o ecoturismo, sendo necessário elaboração de projetos que deem continuidade ao louvável trabalho realizado pelo

secretário e sua equipe, de modo a se capacitar, estruturar e divulgar tais balneários, gerando empregos diretos e indiretos e aquecimento do comércio local.

Criação de Unidades de Conservação no município seria muito importante para preservar as nossas nascentes, matas ciliares (matas da beira d’água), nossas chapadas e matas de cocais. Moradores da região do Portal da Amazônia tem feito tal solicitação às autoridades locais e um projeto para criação de RPPN (Reserva de Patrimônio Particular Natural), um tipo de Unidade de Conservação onde podem ser realizadas várias atividades desde que de modo sustentável já está pronto para ser submetido ao edital da Fundação o Boticário de Proteção à Natureza por mim e outros colaboradores em março de 2020.

Voltando a pergunta inicial, caro leitor: O que nos falta para utilizarmos tamanha potencialidade em nosso favor e colocar Timon em seu devido lugar de destaque em nível estadual, regional a até nacional? Em minha humilde opinião a maior dificuldade é se formar equipes técnicas que possam submeter constantemente projetos para editais da área social, econômica, ambiental, de segurança pública, de direitos humanos, dentre outras possibilidades, tanto públicos quanto privados, nacionais e internacionais. Em alguns destes editais o município precisa estar cadastrado e cumprir alguns pré-requisitos.

Respeitosamente enxergo que a prefeitura municipal tem papel protagonista e, uma vez submetidos e aprovados projetos e criados os canais de comercialização, a tendência é que ONG’s (organizações não governamentais) e outras instituições financiadoras passem a “enxergar” Timon, investindo na região. É importante frisar que tais projetos e empregos gerados aqueceriam significativamente o comércio de Timon, trazendo benefícios não somente para a zona rural, mas para zona urbana também. Vale mencionar ainda que a participação de empresas em projetos socioambientais não traz benefícios

somente à sociedade, mas também à própria empresa através de certificações, selos e benefícios previstos na legislação.

Caro leitor, somente agora levantei editais com valores entre R$100.000,00 e R$3000.000,00 que Timon poderia pleitear e que seriam muito relevantes para geração de empregos, de renda, de combate à exclusão social e também para segurança pública, uma vez que a exclusão social “caminha de mãos dadas” com os altos índices de violência. Certamente geração de rendas alternativas e perspectivas de emprego para nossos jovens colaborariam ainda mais para o belo trabalho desempenhado pela polícia militar de Timon, sob comando do coronel Ribeiro, que em um evento no bairro cidade Nova 2, no dia 02 de novembro, tive a satisfação de conhecer e receber seu apoio verbal a projetos socioeconômicos. Espero muito poder dialogar, aliás, dialogarmos, com a nossa polícia para alinharmos estratégias de combate a criminalidade e à exclusão social.

Eis, portanto, duas grandes demandas de nosso município e não sou apenas eu quem digo, mas o povo, as pesquisas: emprego e segurança. Projetos, cooperativas, associações fortalecidas, uso dos nossos recursos naturais de modo sustentável, sensibilização, engajamento e apoio da sociedade timonense, prefeitura e suas secretarias com corpo técnico dialogando entre si, estado do Maranhão, empresários, associações e cada cidadão timonense. Cada um de nós tem papel importante para inserirmos Timon no time das cidades sustentáveis, do mercado do crédito de carbono, no roteiro ecoturístico do estado, da região. Temos todas as condições para trabalhar “tijolo por tijolo”, de modo gradual e consciente para que a quarta cidade mais populosa do Maranhão (daqui a pouco a terceira) ocupe seu devido lugar de destaque.

“A seara é grande e poucos são os ceifeiros”. Trazendo para o contexto desse texto: as demandas sociais são muitas e poucos são os que, de fato, querem colocar a mão

no arado. Sinta-se convidado e saiba que sua participação e apoio é primordial, estimado cidadão timonense. Obrigado por seu interesse e leitura até aqui.

Não poderia finalizar sem fazer agradecimentos a secretários, autoridades, professores, alunos que tem me recebido pelos quatro cantos de Timon para discutirmos projetos socioambientais para o município: prefeito sr. Luciano Leitoa, vice-prefeito sr. João Rodolfo, sr. Chico Leitoa, Dep. Rafael Leitoa, sec. Dinair Veloso e sua equipe, sec. Victor Hugo e Laura Rodrigues, Dr. Simeão Pereira, Defensoria pública do Maranhão, de antemão ao coronel Ribeiro e a polícia militar de Timon, Aécio Borges (AGERP), Johenny, Chico Gordo, SEBRAE Timon/Caxias, UEMA Timon, SENAC Timon, IFMA Timon, ao PRODEMA/UFPI na pessoa da prof. Dra Jaíra Alcobaça e à Associação dos moradores do Povoado Banco de Areia.

Agradecimento especial também faço ao sec. Daniel Coimbra (Direitos Humanos e Cidadania) que “abraçou” o projeto sobre babaçus e tem muito se empenhado para que saia do papel, trazendo muitos benefícios à Timon

 

Artigo escrito pelo Prof. Dr. Cleuton Lima Miranda

Biólogo, Mestre e Doutor em Zoologia pelo Museu Paraense Emílio Goeldi. Pós-doutor em Biodiversidade e Conservação Animal pela Universidade Estadual do Maranhão. Professor formador dos cursos de licenciatura em Biologia da Universidade Estadual do Piauí e EAD da Universidade Federal do Piauí. Professor colaborador Universidade Estadual do Maranhão. Pesquisador colaborador do comitê da bacia hidrográfica do Rio Parnaíba. Militante PCdoB diretório de Timon. Cidadão timonense.

Deixe um comentário

Você pode ler também!

Não desperdice seu tempo e garanta sua hospedagem Dgi Cloud hoje!
Clínica São Rafael